Hoje,
metade da população brasileira apóia a Copa, segundo o Instituto Vox Populi, e,
ao mesmo tempo, a aprovação do evento é a menor em 5 anos (caiu para 52%), de
acordo com o Datafolha. Dois pesos, duas medidas. Uns acham a Copa boa, outros
ruim. Mas, de fato, são somente formas diferentes de ver a mesma realidade. É
obvio que sediar um evento dessa magnitude traz resultados positivos e
negativos. Cabe a nós fazer um exame completo e averiguar se vale a pena ou
não.
O lado ruim
já conhecemos: obras superfaturadas, empréstimos que deveriam ser usados em
algo útil para a população (e não em estádios que, apesar de lindos, não educam
nem curam ninguém), repressão nas manifestações, descaso da classe política em
ouvir as reivindicações das ruas e a exposição mundial de nossos problemas
estruturais (desigualdade social, problemas em todos os tipos de serviços públicos,
etc.).
Mas existem
pontos positivos que somente cegos (uma pessoa que rejeita ver uma realidade
também pode ser considerada cega) não enxergam. Teremos melhoras em
infra-estrutura (não estarão prontas até a Copa, para o azar dos “gringos”, mas
nós brasileiros as aproveitaremos em alguns anos), geração de empregos (indiretos,
causados pelo aumento da demanda, pois a FIFA não oferece vagas remuneradas) e
teremos uma visibilidade que nunca tivemos. Esse último aspecto é intangível,
pois não podemos medir com exatidão como essa visibilidade ajuda ao país.
O que
sabemos é que a Copa atrai investidores, turistas e a atenção do mundo inteiro.
Esse último dado pode parecer bobeira, mas a exposição mundial mostra o Brasil como
ele é: com seus pontos positivos sendo ressaltados como forma de propaganda turística
e os negativos saindo em brado das ruas e da Internet através de pessoas
normais que contam como é o país da Copa. Os pessimistas sentirão vergonha do
Brasil, mas esse sentimento nunca ajudou ninguém. Muito pelo contrario: ele nos
faz tentar jogar embaixo do tapete certos fatos que são embaraçosos ao invés de diretamente solucioná-los.
Mas isso não
vai mais acontecer aqui, pois desde junho paramos de esconder as coisas debaixo
do tapete do Carnaval e do futebol para finalmente começar a dizer: “isso é o
Brasil, é difícil, mas seja bem-vindo”. Expomos nossos problemas, mostramos ao
mundo que estamos cansados de ser passados para trás e, a partir de agora, quando já nos comparamos com
outros países e percebemos que temos riquezas para ser um país rico, exigimos
serviços públicos dignos dos impostos que pagamos.
Durante a
Copa os protestos serão tão protagonistas quanto os jogos. Será um momento
chave para a mudança do país. Com uma opinião pública de escala mundial, os manifestantes
vão tentar dar ênfase aos problemas que vemos aqui todos os dias. Claro que lá
estarão os opositores das manifestações, aquelas pessoas que, apesar de
considerar o Brasil uma lata de lixo, também não querem mudanças que provenham das ruas
justamente porque o envolvimento da sociedade civil em assuntos públicos e políticos
atrapalham seus interesses privados.
Nesse
sentido é importante que o motivo de manifestar seja exaltado, e não a
violência nos protestos. Em caso contrario temos guerra, e a exigência manifestada
(cabe ressaltar que o objetivo de uma manifestação é tornar uma exigência manifesta)
fica em segundo plano. Não duvido das intenções dos Black Blocs, mas com essas
técnicas violentas a única coisa que conseguirão será mais e mais repressão. É
uma lei universal: a violência, que surge com a perda do diálogo, gera mais
violência justamente pela falta de diálogo. É impossível construir uma mudança
benéfica através da violência. Talvez em épocas mais selvagens fosse possível,
mas hoje temos técnicas mais civilizadas de resolver problemas.
Enfim, a
Copa, mais que um problema para nós, é uma grande OPORTUNIDADE. Podemos
melhorar e tentaremos melhorar de acordo com as possibilidades e com a forma em
que as diferentes forças políticas se organizem. Mas uma coisa é certa: esse
torneio terá um sabor diferente para nós, pois a sociedade também estará em
campo jogando para definir seu próprio destino. E só o futuro dirá se esse
sabor é doce ou azedo.
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