1 Outro Ponto

1 Outro Ponto

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

A Copa é uma oportunidade

Hoje, metade da população brasileira apóia a Copa, segundo o Instituto Vox Populi, e, ao mesmo tempo, a aprovação do evento é a menor em 5 anos (caiu para 52%), de acordo com o Datafolha. Dois pesos, duas medidas. Uns acham a Copa boa, outros ruim. Mas, de fato, são somente formas diferentes de ver a mesma realidade. É obvio que sediar um evento dessa magnitude traz resultados positivos e negativos. Cabe a nós fazer um exame completo e averiguar se vale a pena ou não.

O lado ruim já conhecemos: obras superfaturadas, empréstimos que deveriam ser usados em algo útil para a população (e não em estádios que, apesar de lindos, não educam nem curam ninguém), repressão nas manifestações, descaso da classe política em ouvir as reivindicações das ruas e a exposição mundial de nossos problemas estruturais (desigualdade social, problemas em todos os tipos de serviços públicos, etc.).

Mas existem pontos positivos que somente cegos (uma pessoa que rejeita ver uma realidade também pode ser considerada cega) não enxergam. Teremos melhoras em infra-estrutura (não estarão prontas até a Copa, para o azar dos “gringos”, mas nós brasileiros as aproveitaremos em alguns anos), geração de empregos (indiretos, causados pelo aumento da demanda, pois a FIFA não oferece vagas remuneradas) e teremos uma visibilidade que nunca tivemos. Esse último aspecto é intangível, pois não podemos medir com exatidão como essa visibilidade ajuda ao país.

O que sabemos é que a Copa atrai investidores, turistas e a atenção do mundo inteiro. Esse último dado pode parecer bobeira, mas a exposição mundial mostra o Brasil como ele é: com seus pontos positivos sendo ressaltados como forma de propaganda turística e os negativos saindo em brado das ruas e da Internet através de pessoas normais que contam como é o país da Copa. Os pessimistas sentirão vergonha do Brasil, mas esse sentimento nunca ajudou ninguém. Muito pelo contrario: ele nos faz tentar jogar embaixo do tapete certos fatos que são embaraçosos ao invés de diretamente solucioná-los.

Mas isso não vai mais acontecer aqui, pois desde junho paramos de esconder as coisas debaixo do tapete do Carnaval e do futebol para finalmente começar a dizer: “isso é o Brasil, é difícil, mas seja bem-vindo”. Expomos nossos problemas, mostramos ao mundo que estamos cansados de ser passados para trás e, a partir de agora, quando já nos comparamos com outros países e percebemos que temos riquezas para ser um país rico, exigimos serviços públicos dignos dos impostos que pagamos.

Durante a Copa os protestos serão tão protagonistas quanto os jogos. Será um momento chave para a mudança do país. Com uma opinião pública de escala mundial, os manifestantes vão tentar dar ênfase aos problemas que vemos aqui todos os dias. Claro que lá estarão os opositores das manifestações, aquelas pessoas que, apesar de considerar o Brasil uma lata de lixo, também não querem mudanças que provenham das ruas justamente porque o envolvimento da sociedade civil em assuntos públicos e políticos atrapalham seus interesses privados.

Nesse sentido é importante que o motivo de manifestar seja exaltado, e não a violência nos protestos. Em caso contrario temos guerra, e a exigência manifestada (cabe ressaltar que o objetivo de uma manifestação é tornar uma exigência manifesta) fica em segundo plano. Não duvido das intenções dos Black Blocs, mas com essas técnicas violentas a única coisa que conseguirão será mais e mais repressão. É uma lei universal: a violência, que surge com a perda do diálogo, gera mais violência justamente pela falta de diálogo. É impossível construir uma mudança benéfica através da violência. Talvez em épocas mais selvagens fosse possível, mas hoje temos técnicas mais civilizadas de resolver problemas.


Enfim, a Copa, mais que um problema para nós, é uma grande OPORTUNIDADE. Podemos melhorar e tentaremos melhorar de acordo com as possibilidades e com a forma em que as diferentes forças políticas se organizem. Mas uma coisa é certa: esse torneio terá um sabor diferente para nós, pois a sociedade também estará em campo jogando para definir seu próprio destino. E só o futuro dirá se esse sabor é doce ou azedo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário