Os grupos
de extermínio das Polícias começaram com a intenção de baixar a criminalidade
em certas zonas das capitais. É uma intenção parecida com a que a sociedade tem
hoje, quando prende um suspeito de roubo em um poste depois de linchá-lo. Quando
os métodos legais não funcionam, alegam que é impossível reverter a situação e
tentam fazer justiça com as próprias mãos. A medida talvez funcione no começo,
como foi o caso dos grupos de extermínio, que de fato conseguiram baixar os índices
de criminalidade de algumas zonas (claro que os bandidos temiam morrer nas mãos
desses grupos). Mas depois, aqueles que se chamam “justiceiros” perdem o senso
de justiça e começam a praticar atrocidades. Foi o que aconteceu com as milícias
policiais, que atualmente são um dos piores problemas do país.
Hoje mais
um adolescente foi linchado e amarrado depois de cometer um roubo. É compreensível
o argumento de que a sociedade está cansada da criminalidade, principalmente no
Rio de Janeiro. Também podemos entender que os cidadãos presentes em uma cena
de roubo tentem pegar o ladrão. Mas nesses casos existe a intenção de linchá-lo,
e isso também é crime. Um crime não justifica o outro, a não ser em casos claros
de legítima defesa. Mas aqui se trata de descarregar a raiva que sentimos do
sistema em uma única pessoa, porque o bandido também é gente, por mais que
algumas pessoas achem que não.
Além disso,
qualquer medida violenta sem um ato prévio contra a pessoa que revida tira a
legitimidade de defesa, porque se trata de um ataque direto. Um ladrão correndo
que é pego e preso tem como atacar alguém? Então de onde vêm a legítima defesa
coletiva? Ela somente existiria se o ladrão tivesse roubado todos. Ou então se
a pessoa roubada conseguisse pegar e bater no ladrão até ele ceder.
Fazendo
justiça com as próprias mãos chegaremos a uma situação em que os que se dizem “cidadãos
de bem” estarão linchando pessoas na rua constantemente. E, me desculpem, isso
não é ser uma pessoa de bem. Podem dizer que eu adote um bandido, fazendo alusão
ao comentário da jornalista que promoveu atos desse tipo. Mas se pensarem um
pouco, esquecendo os traumas próprios e pensando como um verdadeiro cidadão de
bem, vão ver que não existe justiça com as próprias mãos que funcione.
E se mesmo
assim não acreditarem, temos o exemplo das milícias, que hoje são um dos piores
problemas do nosso país. Matam quem eles consideram culpado e quando eles
consideram culpado. É um tribunal de rua que decide quem vive e quem morre. Trata-se
de fazer justiça com as próprias mãos ou de crimes sem justificativa aparente? A
consciência de cada um pode responder essas perguntas corretamente, desde que
tenhamos um pouco de civilidade em nossos pensamentos.
A legítima
defesa coletiva da Sheherazade fez a sociedade querer reacionar aos roubos. Ela
deve estar orgulhosa de ver seus comentários rendendo frutos. Mas se essa moda
continua começaremos a ver casos sérios. Tão sérios quanto o do Amarildo, ou do
jovem José Guilherme Silva, de 20 anos, que se “suicidou” dentro de um camburão
mesmo desarmado e algemado com as mãos para trás.
Quando a
sociedade reaciona com mais violência, perdemos a civilidade e caímos em um
mundo selvagem onde o olho por olho vale mais que a Justiça. Por mais que nossa
Justiça seja limitada, lenta, e, em certos casos, injusta; linchar e amarrar alguém
no poste É CRIME. Como condenar um crime cometendo outro crime? Eles não podem
roubar, mas nós podemos bater porque é legítima defesa coletiva. Estamos
querendo voltar para a Idade Média com intenções como essa. Sei que a sociedade
está cansada de roubos e crimes, mas tudo tem um limite, por favor.
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