1 Outro Ponto

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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

A “legítima defesa coletiva” da Sheherazade e os grupos de extermínio são a mesma coisa

Os grupos de extermínio das Polícias começaram com a intenção de baixar a criminalidade em certas zonas das capitais. É uma intenção parecida com a que a sociedade tem hoje, quando prende um suspeito de roubo em um poste depois de linchá-lo. Quando os métodos legais não funcionam, alegam que é impossível reverter a situação e tentam fazer justiça com as próprias mãos. A medida talvez funcione no começo, como foi o caso dos grupos de extermínio, que de fato conseguiram baixar os índices de criminalidade de algumas zonas (claro que os bandidos temiam morrer nas mãos desses grupos). Mas depois, aqueles que se chamam “justiceiros” perdem o senso de justiça e começam a praticar atrocidades. Foi o que aconteceu com as milícias policiais, que atualmente são um dos piores problemas do país.

Hoje mais um adolescente foi linchado e amarrado depois de cometer um roubo. É compreensível o argumento de que a sociedade está cansada da criminalidade, principalmente no Rio de Janeiro. Também podemos entender que os cidadãos presentes em uma cena de roubo tentem pegar o ladrão. Mas nesses casos existe a intenção de linchá-lo, e isso também é crime. Um crime não justifica o outro, a não ser em casos claros de legítima defesa. Mas aqui se trata de descarregar a raiva que sentimos do sistema em uma única pessoa, porque o bandido também é gente, por mais que algumas pessoas achem que não.

Além disso, qualquer medida violenta sem um ato prévio contra a pessoa que revida tira a legitimidade de defesa, porque se trata de um ataque direto. Um ladrão correndo que é pego e preso tem como atacar alguém? Então de onde vêm a legítima defesa coletiva? Ela somente existiria se o ladrão tivesse roubado todos. Ou então se a pessoa roubada conseguisse pegar e bater no ladrão até ele ceder.

Fazendo justiça com as próprias mãos chegaremos a uma situação em que os que se dizem “cidadãos de bem” estarão linchando pessoas na rua constantemente. E, me desculpem, isso não é ser uma pessoa de bem. Podem dizer que eu adote um bandido, fazendo alusão ao comentário da jornalista que promoveu atos desse tipo. Mas se pensarem um pouco, esquecendo os traumas próprios e pensando como um verdadeiro cidadão de bem, vão ver que não existe justiça com as próprias mãos que funcione.

E se mesmo assim não acreditarem, temos o exemplo das milícias, que hoje são um dos piores problemas do nosso país. Matam quem eles consideram culpado e quando eles consideram culpado. É um tribunal de rua que decide quem vive e quem morre. Trata-se de fazer justiça com as próprias mãos ou de crimes sem justificativa aparente? A consciência de cada um pode responder essas perguntas corretamente, desde que tenhamos um pouco de civilidade em nossos pensamentos.

A legítima defesa coletiva da Sheherazade fez a sociedade querer reacionar aos roubos. Ela deve estar orgulhosa de ver seus comentários rendendo frutos. Mas se essa moda continua começaremos a ver casos sérios. Tão sérios quanto o do Amarildo, ou do jovem José Guilherme Silva, de 20 anos, que se “suicidou” dentro de um camburão mesmo desarmado e algemado com as mãos para trás.


Quando a sociedade reaciona com mais violência, perdemos a civilidade e caímos em um mundo selvagem onde o olho por olho vale mais que a Justiça. Por mais que nossa Justiça seja limitada, lenta, e, em certos casos, injusta; linchar e amarrar alguém no poste É CRIME. Como condenar um crime cometendo outro crime? Eles não podem roubar, mas nós podemos bater porque é legítima defesa coletiva. Estamos querendo voltar para a Idade Média com intenções como essa. Sei que a sociedade está cansada de roubos e crimes, mas tudo tem um limite, por favor.

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