Não adianta
fugir, nem mentir pra si mesmo agora. Há tanta vida lá fora! Não da para fingir
que não nos achamos superiores que os demais. Também não podemos ignorar o fato
de que a periferia sempre foi excluída socialmente das classes mais altas. Que jogue
a primeira pedra quem nunca falou que aquele lugar ou objeto é “de pobre”. É um
pensamento feio, mas real, que se mantém desde a época da escravidão, quando pessoas
com mais recursos tinham não somente pensamentos racistas e elitistas, mas também
praticavam atos repugnantes que envolviam torturas físicas e emocionais.
A
desigualdade sempre existiu em nosso país e pensamentos desse tipo são reflexos
dessa chaga que é, possivelmente, a mais grave de nosso país e a responsável
por muitos de nossos problemas sociais econômicos e culturais. O que parece uma
brecha existente entre diferentes classes sociais é, na verdade, um imenso vale
que deveríamos cruzar para nos unir como sociedade. Mas não é fácil para o rico
engolir o orgulho e aceitar o pobre como igual perante o Governo a Justiça. Do
mesmo jeito, também não é fácil para o pobre aceitar um comportamento fraterno
depois de ter sido ignorado e humilhado durante tanto tempo. É uma situação
parecida com a que Mandela se encontrou quando chegou ao poder.
Já dizia
Mano Brown que “o mundo é diferente da ponte pra cá”. Essa ponte que atravessa
o vale da desigualdade é a que jovens dos “rolezinhos” usam para ir a lugares
supostamente “elitizados”. É então que nasce o desconforto, pois alguns pensam
que “eles deviam ficar no lugar deles”. Outros pensam que proibir os rolezinhos
é uma demonstração clara de elitismo e pouca tolerância de quem freqüenta shoppings
e outros lugares que, teoricamente, são para todos, mas que, na prática,
funcionam como a casa-grande e a senzala.
Nenhum está
totalmente certo nem totalmente errado. Claro que a presença em massa de
pessoas da periferia causa desconforto nos mais ricos, que tantas vezes foram
assaltados e submetidos a situações cruéis pelas mãos de pessoas aparentemente parecidas
com as que passeiam nos shoppings. Mas condenar a presença de jovens sem
motivos claros é, nos dias de hoje, assim como nos de ontem, uma decisão preconceituosa
e elitista. Não adianta negar.
Se aparecem
motivos para condenar os rolezinhos, eles devem ser bem fundamentados (uma
briga ou supostos roubos não verificados não servem para criticar um movimento
que vai tomando proporções enormes, porque ninguém daria o mesmo tratamento
caso esses atos fossem praticados por jovens de classes mais altas). Nesse
sentido, a imprensa conservadora se esforça para encontrar e destacar fatos que
sirvam de argumento na hora de condenar essa prática, porque não pode dizer
diretamente que eles são proibidos (devem manter um mínimo dos valores de um
Estado de Direito, que determina igualdade para todos). Mas quer que eles
acabem de alguma forma, porque essa imprensa reflete justamente o pensamento de
quem não quer jovens pobres em shoppings.
Não podemos
negar. Nossas classes médias e altas são preconceituosas e racistas. Eu sou assim
em certas ocasiões e conheço muitas pessoas que também são. Não precisamos ter vergonha, mas é necessario admitir. É um problema
cultural que provém dos séculos que duraram nosso “apartheid” não oficial. O
melhor a fazer é admitir e buscar melhorar vendo os jovens funkeiros como
compatriotas, como cidadãos. Porque é isso que eles são. Nem todo pobre é
bandido nem todo funkeiro é marginal. Assim como nem todo americano é gordo,
nem todo chinês mafioso ou todo africano é desnutrido. Podemos abrir a cabeça e
aceitar, para os outros, o que exigimos para nós mesmos. Parece difícil, mas não
é tanto. O primeiro passo é reconhecer. Só depende de nós.
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