1 Outro Ponto

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segunda-feira, 10 de março de 2014

Os rolezinhos demonstram como somos racistas e elitistas

Não adianta fugir, nem mentir pra si mesmo agora. Há tanta vida lá fora! Não da para fingir que não nos achamos superiores que os demais. Também não podemos ignorar o fato de que a periferia sempre foi excluída socialmente das classes mais altas. Que jogue a primeira pedra quem nunca falou que aquele lugar ou objeto é “de pobre”. É um pensamento feio, mas real, que se mantém desde a época da escravidão, quando pessoas com mais recursos tinham não somente pensamentos racistas e elitistas, mas também praticavam atos repugnantes que envolviam torturas físicas e emocionais.

A desigualdade sempre existiu em nosso país e pensamentos desse tipo são reflexos dessa chaga que é, possivelmente, a mais grave de nosso país e a responsável por muitos de nossos problemas sociais econômicos e culturais. O que parece uma brecha existente entre diferentes classes sociais é, na verdade, um imenso vale que deveríamos cruzar para nos unir como sociedade. Mas não é fácil para o rico engolir o orgulho e aceitar o pobre como igual perante o Governo a Justiça. Do mesmo jeito, também não é fácil para o pobre aceitar um comportamento fraterno depois de ter sido ignorado e humilhado durante tanto tempo. É uma situação parecida com a que Mandela se encontrou quando chegou ao poder.

Já dizia Mano Brown que “o mundo é diferente da ponte pra cá”. Essa ponte que atravessa o vale da desigualdade é a que jovens dos “rolezinhos” usam para ir a lugares supostamente “elitizados”. É então que nasce o desconforto, pois alguns pensam que “eles deviam ficar no lugar deles”. Outros pensam que proibir os rolezinhos é uma demonstração clara de elitismo e pouca tolerância de quem freqüenta shoppings e outros lugares que, teoricamente, são para todos, mas que, na prática, funcionam como a casa-grande e a senzala.

Nenhum está totalmente certo nem totalmente errado. Claro que a presença em massa de pessoas da periferia causa desconforto nos mais ricos, que tantas vezes foram assaltados e submetidos a situações cruéis pelas mãos de pessoas aparentemente parecidas com as que passeiam nos shoppings. Mas condenar a presença de jovens sem motivos claros é, nos dias de hoje, assim como nos de ontem, uma decisão preconceituosa e elitista. Não adianta negar.

Se aparecem motivos para condenar os rolezinhos, eles devem ser bem fundamentados (uma briga ou supostos roubos não verificados não servem para criticar um movimento que vai tomando proporções enormes, porque ninguém daria o mesmo tratamento caso esses atos fossem praticados por jovens de classes mais altas). Nesse sentido, a imprensa conservadora se esforça para encontrar e destacar fatos que sirvam de argumento na hora de condenar essa prática, porque não pode dizer diretamente que eles são proibidos (devem manter um mínimo dos valores de um Estado de Direito, que determina igualdade para todos). Mas quer que eles acabem de alguma forma, porque essa imprensa reflete justamente o pensamento de quem não quer jovens pobres em shoppings.


Não podemos negar. Nossas classes médias e altas são preconceituosas e racistas. Eu sou assim em certas ocasiões e conheço muitas pessoas que também são. Não precisamos ter vergonha, mas é necessario admitir. É um problema cultural que provém dos séculos que duraram nosso “apartheid” não oficial. O melhor a fazer é admitir e buscar melhorar vendo os jovens funkeiros como compatriotas, como cidadãos. Porque é isso que eles são. Nem todo pobre é bandido nem todo funkeiro é marginal. Assim como nem todo americano é gordo, nem todo chinês mafioso ou todo africano é desnutrido. Podemos abrir a cabeça e aceitar, para os outros, o que exigimos para nós mesmos. Parece difícil, mas não é tanto. O primeiro passo é reconhecer. Só depende de nós.

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