1 Outro Ponto

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terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Quem são os Black Blocs? Têm boas intenções, mas tática contestável

As intenções dos Black Blocs são respeitáveis: exigem mais qualidade nos serviços públicos (transporte, saúde e escolaridade), defendem a sociedade civil, apontam e divulgam injustiças cometidas pelo Estado (que teoricamente deveria proteger e amparar), divulgam informações relevantes sobre políticos e seus respectivos abusos, publicam a verdade sobre informações que a imprensa distorceu, convocam manifestações com motivos relevantes e lutam pelo direito dos mais fracos (como as pessoas despejadas da Comunidade Alto da Paz, que foram totalmente esquecidas ou ignoradas pela Grande Imprensa).

As intenções dos mascarados são respeitáveis e dignas de aplauso, mas com esses meios de atuação só conseguirão mais repressão. E, com mais repressão, mais indignação da população e dos próprios mascarados, que irão revidar de alguma forma. Com isso temos um olho por olho que pode resultar em mais mortes, o que serviria para justificar (com certo grau de oportunismo) até mesmo uma antidemocrática lei contra o terror.

Quanto mais os Black Blocs insistirem na violência, mais serão recebidos com violência. É algo estudado e conhecido: a violência começa com a perda de diálogo e se mantém até as partes terem condições e vontade de dialogar. Até lá teremos um clima de guerra em cada manifestação, o que só serve para deixar as exigências em segundo plano e para acabar com a única razão democrática de manifestar, que é tornar algo (uma exigência) manifesto. Sem fazer que essa exigência seja manifesta e olhando somente à violência, qual é o sentido de manifestar? Nenhum! É somente guerra.

Com isso, a massa, ao ver as reações provocadas pelas táticas violentas, vai deixando de apoiar quem pretende lutar por seus direitos. As publicações da Veja e do Globo parecem tiros no escuro, mas tem um alvo: as próprias manifestações. São inexatas e com muitas suposições (sempre vinculando a idéia de que, hoje, manifestação é vandalismo). Por isso é importante se manter no pouco que conhecemos desse grupo, sem dar ouvidos unicamente ao ponto de vista conservador da Grande Imprensa.

O movimento cresceu muito desde junho, por isso às vezes podemos ver incongruência nos pontos de vistas defendidos pelos adeptos à tática Black Bloc. Algumas pessoas acreditam que eles defendem um ou outro partido, isso é correto até certo ponto. A presença anarquista é incontestável, mas com o crescimento de pessoas afins, o movimento adquiriu dimensões gerais difíceis de imaginar.

Sabemos que jovens da periferia aderiram às táticas Black Blocs. Mas não sabemos quais são as intenções desses jovens: têm um objetivo claro ou só pretendem quebrar a cidade? Nesse caso cada pessoa é um universo e não é possível generalizar sem cometer erros. Com certeza existem aqueles que acreditam em mudanças quando jogam pedras em vidros. Mas obviamente uma tática violenta atrai cidadãos violentos sem razões políticas claras. Não existe generalização que seja correta nesse caso. Por esse motivo a imprensa não consegue definir quem são os Black Blocs: eles estão querendo dar uma base sólida a um movimento que é “líquido” e que muda constantemente.

Não têm uma ideologia bem definida em toda sua estrutura, inclusive porque o movimento está organizado em rede, sem líderes claros; então falta uma referência. Mas uma coisa é certa: no Brasil, Black Bloc não é mais somente uma técnica, eles são um conjunto, um grupo formado. No exterior Black Bloc é o nome utilizado para a tática de quebrar ícones do capitalismo para conseguir a desestabilização dessas empresas. Mas aqui o termo é utilizado para designar um conjunto que pouco a pouco vai mostrando algumas de suas facetas. Não é somente uma tática, são um grupo cujo grau de organização desconhecemos.

Trata-se de um movimento muito amplo, típico da era da informação. Temos muita informação e pouco esclarecimento. Mas de antemão podemos prever que as táticas violentas serão ruins para o Brasil. No século XXI não existem medidas violentas que tragam benefícios para a população. Os Black Blocs acreditam mais em seus objetivos que nessa teoria, por isso dão socos em ponta de faca. E esses motivos que os levam à luta, que ainda são respeitáveis, ficam em segundo plano dando espaço a uma violência que, longe de conseguir avanços para a população, somente aumentará a repressão e a resposta violenta do Estado, que vai insistir em manter o monopólio da força.


Por isso, se os Black Blocs realmente querem realizar o que defendem publicamente, deveriam mudar suas técnicas e promover manifestações pacíficas, como algumas que tivemos em junho e que contaram até com o apoio oportunista da Grande Imprensa. Caso contrário teremos mais violência, mais mortes, mais repressão e nada de exigências manifestadas. E isso com certeza não são motivos dignos de luta. Muito pelo contrário: deveriam dar vergonha a quem os promove.

2 comentários:

  1. Opa Rafa,

    como o nome do seu blog é 1 Outro Ponto, resolvi expor um outro ponto sobre os Black Blocks.

    Primeiramente eu tenho de dizer que eu concordo com uma frasea sua que eu considero fundamental: para o debate: "cada pessoa é um universo". Então nem eu to certo sobre os BBs, nem você, nem ninguém. Pois não existe um motivo, estratégia, objetivos e princípio únicos que os justifiquem e levem alguém a escolher esse tipo de movimento.

    Mas dito isso, vou dizer a minha impressão sobre os mesmos.
    Os BBs são reflexo de algo maior. O que leva alguém a sair de casa para se aventurar contra a polícia, só para "quebrar"? E melhor, pq alguém vai quebrar o patrimônio público (como os ônibus), sendo que teoricamente ele pertence também à essa pessoa.
    Acredito que esse mesmo BB não quebraria o próprio carro ou a própria casa, mas quebra a "casa" que a cidade deveria ser.
    E aí que está o ponto. O cara não acha que a cidade lhe pertence, não acha que o ônibus lhe pertence. Por razões históricas, econômicas e políticas o cara foi alienado da cidade. Ela não lhe pertence. E por isso não há remorso em quebrar a mesma.

    E quanto ao argumento de isso ser uma má estratégia, eu penso que isso não chega a ser uma estratégia. Mas reflexo de uma desesperança e falta de fé em mudanças vindas do poder público. Ele está na rua para reclamar e se fazer ouvido (seja gritando ou seja quebrando), não para pedir ou dialogar com o poder público.
    Uma analogia meio porca, mas que talvez ilustre mais ou menos o que eu quero dizer é a seguinte: é como se os escravos queimassem o navio negreiro, pois estão insatisfeitos com a sua condição, mas não possuem uma perspectiva concreta de mudança, restando apenas a destruição como descontentamento.

    Por fim, não defendo que os BBs tenham essa consciência toda. Muitos estão na onda da coisa e acham legal quebrar, lutar contra a polícia, sair no jornal, etc. Mas mesmo esses são reflexos dos tempos e contexto social do Brasil

    Espero diálogo contigo.

    Abraço!

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  2. Bem legal essa visão que você teve. É um tema tão complexo que acontece isso mesmo: é impossível decifrar ele totalmente. Sempre vamos ter perguntas surgindo e hipóteses para considerar, por isso é importante ter a cabeça aberta e não se limitar a um único ponto de vista. Foi o que eu tentei falar no texto, mas como você percebeu, não consegui exprimir o suficiente para supor que muitos dos que estão lá não vêem isso como tática. É uma grande mistura de pessoas, idéias e objetivos... Temos que considerar todas as opções, desde que não sejam mentirosas.

    Também concordo quando você diz que eles são reflexo de algo maior. Para mim esse algo maior é a insatisfação geral com o país e ele està presente em todas as esferas da sociedade, que explica a grande mistura nos simpatizanes dos BB. O problema é quando esse sentimento perde a cabeça e tenta encontrar uma saída que acaba não tendo as conseqüências esperadas, mas claro, nem todos tem a cabeça para perceber isso. O ruim é que uma dessas conseqüências é tanto a repressão como a vontade de lançar uma lei anti-terrorista, ambas péssimas para uma sociedade democrática.

    Mas, enfim, só o futuro e os livros de história poderão dizer se essas táticas ou improvisos são positivos ou não para o país. Hoje, podemos supor e debater o que é melhor, mas dificilmente conseguiremos chegar a muitas conclusões que se mantenha com o tempo, porque o tema ainda vai mudar muito só nesse ano.

    Abraço, tudo de bom.

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