A primeira cena do filme Cidade de Deus mostra
um momento de tranqüilidade na favela; risadas, samba e algumas galinhas que
estão presas ou sendo preparadas para a churrasqueira. Se trata de uma metáfora
que, de tão profunda e correta, passa desapercebida para muitas pessoas. As
galinhas representam os moradores de favelas. As que estão presas em gaiolas vêem
como as “amigas” são degoladas e preparadas para o churrasco ali mesmo, na frente
delas. Entretanto, estão presas e nada pode ser feito para fugir da morte, que
parece iminente.
Uma delas escapa e começa a correr despertando
gritos de “pega a galinha” dos membros da gangue do Zé Pequeno. Depois de quase
ser atropelada por um camburão da Polícia, a pobre ave acaba encurralada quando
encontra o protagonista Buscapé na sua frente. Atrás do simpático personagem e
da galinha, um camburão de Polícia. A câmera então faz uma volta completa (criando
uma das mais famosas imagens do cinema brasileiro) e mostra, como a galinha e Buscapé
estão entre duas ameaças: os bandidos e os policiais. Estão encurralados. Não há
para onde correr e o destino dos dois por um segundo parece ser o mesmo das
galinhas degoladas.
Trata-se de uma realidade que, apesar de
triste, é comum e considerada normal para uma parcela da população. Quem mora
em favelas está como as galinhas: assiste a morte de seus semelhantes e nada
pode fazer a não ser esperar sua própria morte ou correr. Se tenta correr, uma
hora ou outra acaba encurraladas pela Polícia ou pelos bandidos, quando não por
ambos, como a galinha perseguida do filme. Mas algo está mudando nas “gaiolas”
brasileiras. Há tempos surgiu um sentimento de revolta que domina grande parte
dos moradores de comunidades. A cada nova morte, mais indignação e protestos.
Os fatos
Ontem, três pessoas foram mortas no Rio de
Janeiro. O caso que ganhou mais repercussão ocorreu nos Morros do Cantagalo e
Pavão-Pavãozinho, onde o jovem dançarino do
programa “Esquenta”, da Rede Globo, Douglas Rafael da Silva Pereira, teria sido
espancado até a morte por PMs da UPP. O caso despertou revolta entre os
moradores, que, com agressividade, protestaram na manhã seguinte entre as
praias de Copacabana e Ipanema, onde se localiza o morro onde Douglas morava.
Foram feitas barricadas e houve conflito com a Polícia, que supostamente baleou
outros dois cidadãos no protesto: um menino de 12 anos identificado como
Matheus e um homem de 27 anos chamado Edílson da Silva Santos.
A versão da Polícia sobre o
caso do dançarino Douglas aponta que o jovem caiu de um muro e morreu pelos
ferimentos. Entretanto, os exames do IML indicam que "Hemorragia interna
decorrente de laceração pulmonar decorrente de ferimento transfixante do tórax
- ação perfuro contundente", ou seja, algo perfurou o tórax do dançarino.
A Polícia não assume a responsabilidade, mas está sendo investigada enquanto os
moradores a acusam de assassinato.
Hoje, um curta-metragem que
tem o jovem assassinado como protagonista emociona os usuários da rede. No
curta, Douglas sai de uma partida de futebol, caminha normalmente por sua
comunidade e acaba encontrando dois policiais, que, depois de tratá-lo com a típica
brutalidade de nossa PM, o acaba matando com um tiro. Os dois PMs fogem e
deixam o jovem lá, o que assustadoramente corresponde com a realidade, pois
Douglas foi encontrado no chão, morto.
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| Douglas, o dançarino assassinado |
Pouco se falou sobre a morte
de Edílson. Por outro lado, médios de comunicação alternativos como a Mídia Ninja
publicaram informações dizendo que o menino de 12 baleado participava da
manifestação e, juntamente com outras crianças, jogava pedras nos policiais. A líder
comunitária Deise Carvalho foi entrevistada pelo jornal A Nova Democracia e
contou que nunca tinha visto a comunidade dessa forma. “Eu tenho 43 anos e, pela primeira
vez na minha vida, eu vi a dor nos olhos das pessoas. A revolta, o ódio nos
olhos das crianças, porque ele era o símbolo das crianças como dançarino”. Segundo
a mesma líder comunitária, “as crianças estavam revoltadas. Foram para as ruas
e estavam jogando pedras. Até um policial falou: se as crianças podem jogar
pedras, as crianças podem morrer”. E continua: “Isso não foi coisa de
traficante. Se fosse, os moradores não iriam sentir essa revolta. A gente sabe
que quando é uma morte pelo tráfico, os moradores se acuam. Eles sabem que de
repente vai ter uma represália”.
Segundo a Mídia Ninja, que, hoje, é um dos poucos
meios de comunicação realmente centrados nos problemas sociais do Rio de
Janeiro, “moradores afirmam que a favela não tem
saúde, escola e saneamento, mas está repleta de polícia. Bens de cidadania
ausentes e insegurança disfarçada de pacificação. A miliciarização da UPP chega
ao Pavão-Pavãozinho”.
Esse panorama é o das gaiolas
no churrasco do século XXI: a Polícia, assim como os bandidos, também mata. Às galinhas,
resta ter esperança e continuar a vida, além de, claro, continuar com os
protestos, onde serão considerados vândalos e bandidos pelos nobres ignorantes e
despreocupados de nossas capitais. A Polícia Militar possivelmente será
investigada nesses casos. Entretanto, nossa Justiça continuará culpando a pare
mais fraca, nesse caso, os PMs suspeitos. Enquanto isso, o Secretário de
Segurança Pública e os altos escalões das Polícias Militar e Civil continuam acatando
decisões injustas dos tribunais enquanto promovem medidas cruéis com as
periferias de sua cidade. Enquanto o Brasil continuar culpando e punindo
exclusivamente os mais pobres, não será possível tomar medidas profundas que
solucionem um problema mais profundo ainda. O Brasil, nesse momento, está tratando um câncer com aspirina ao punir unicamente os PMs envolvidos em mortes e unicamente os bandidos pobres. Os ricos, como Eduardo Azeredo do PSDB ou André Vargas do PT, por outro lado, ficam impunes e continuam desfilando em seus carros de luxo.
As três pessoas assassinadas rapidamente serão esquecidas. Infelizmente, surgirão outros Douglas, Edílsons e Matheus. Quem acredita que não tem nada a ver com isso, simplesmente faz parte do problema, pois não exige mudanças que sejam para o bem comum e, dessa forma, aceita essas mortes injustificadas e dignas de ditadura militar. Como diz o Capitão Nascimento
na segunda edição de seu filme que, apesar de ser fictício, também é muito real e
atual: "Não é à toa que os
traficantes, policiais e milicianos matam tanta gente nas favelas. Não é à toa
que existem as favelas. Não é à toa que acontece tanto escândalo em Brasília, e
que entra governo e sai governo, e não mudam as coisas. Pra mudar as coisas,
vai demorar muito tempo. O sistema é foda. Ainda vai morrer
muito inocente”.



muito bom o texto, fiquei muito emocionada ao ver o vídeo, aqui em Belém não é diferente, quantos jovens são mortos por policiais nas periferias daqui tbm, houve um extermínio de vários adolescentes um tempo atrás no distrito de Icoaraci em que foram colocados todos de joelho de costas para morrer...pelo menos agora temos outros meios para denunciar, que cada vez mais o povo se revolte contra essas arbitrariedades e esse extermínio patrocinado pelo estado!
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