Eu
sinceramente tentei equilibrar todos os lados. Há muitos meses tento entender
meu país lendo páginas diferentes, comentários em diversos jornais e diferentes
opiniões publicadas em sites de incrível variedade. Em minha investigação
movida por curiosidade, fiz o possível por tentar entender opiniões contrárias
e, de verdade, sinto uma tristeza profunda no coração. Encontrei-me com muito
rancor, muita ignorância, muito preconceito e muita informação mal escrita e
mal intencionada. Vi lados se acusando e brigando. Fiz o possível para não
odiar nenhum e por não me sentir preso a nenhum deles. Como jornalista, tentei
ser imparcial. E a imparcialidade me mostrou que ninguém é dono da verdade, ao
mesmo tempo que todos são donos da sua verdade. Antes eu me identificava com
uma ideia, hoje, não concordo com ninguém, mas sim com certas idéias de alguns
e de outros. Preciso desse equilíbrio para poder pensar com claridade, se não
caio em um partidarismo nojento que nos prende a visões limitadas e
preconceituosas.
Vi e vejo
muito ódio no coração. E não é exclusividade da extrema direita e seu já
conhecido preconceito por negros, gays, etc. Porque também encontrei muito ódio
na extrema esquerda e nos diversos tipos de centros políticos, tanto centro-direita
como centro-esquerda. Os evangélicos atacam gays e esquerdistas e recebem
ataques dos mesmos coletivos. Os conservadores denunciam um “Pé Grande” que
eles chamam de ameaça comunista e mantém seu velho ódio fascista ao mesmo tempo
que se vêem salvos por acreditar em Jesus. Os progressistas ridicularizam, com
um egocentrismo angustiante, certas idéias conservadoras e acreditam que são os
donos da verdade só porque têm apoio eleitoral, enquanto caem no erro ao
defender cegamente e incondicionalmente um projeto de governo que logicamente tem
vários defeitos. A polarização é tão grande que, hoje, quem defende um partido
político ou uma ideia, simplesmente ignora o que o outro tem a dizer, o que logicamente
causa uma discussão sem sentido ou diretamente uma troca de acusações sem
nenhum proveito útil para nossa sociedade.
Que tipo de
Democracia é essa? Parecem mais minis-Ditaduras onde todos (e ninguém) têm razão.
Temos que escutar o outro. Ninguém é tão burro a ponto de não dizer algo
proveitoso e ninguém é tão esperto a ponto de nunca se equivocar. Precisamos de
mais humildade e parar de ver a farpa no olho alheio para começar a perceber as
vigas que nos cegam e contribuem a criar um sistema de que tantos se
envergonham, mas não se movem para mudá-lo. Precisamos parar com esse
egocentrismo que faz tanto mal ao país. E, urgentemente, precisamos tentar
entender e aceitar os outros. Podemos começar parando de xingar quem tem idéias
diferentes. Isso vale para quem gosta de falar da “corja” comunista do Governo
Federal e também para quem fala dos “coxinhas” reacionários. Só está isento quem
se abstém de estereótipos limitados e limitantes.
Conhecemos
nossos problemas e a culpa não é dos políticos que nos opomos. Quem defende o
PT, diz que a culpa é do PSDB e vice-versa. E quem não defende ninguém, ataca todos.
Ora, onde queremos chegar? O pessimismo vem dominando nossas cabeças e parece
que nunca ficaremos contentes com o que temos hoje: um país com seus problemas
e virtudes. Vejo muita indignação e pouca solução. Vejo muita raiva e pouca ação.
E também vejo muito ódio e pouca compreensão. É muito triste ver estrangeiros
acreditando no Brasil enquanto nós reclamamos e nos atacamos sem sequer tentar
entender o outro.
O PT não é o
partido mais corrupto da história e o PSDB não criou a desigualdade que temos
hoje. Cada um tem suas virtudes e seus defeitos. Temos uma história em comúm e
moramos no mesmo país. Não há razões para odiarmos um ao outro. A única razão
que tem sentido é a que aponta o egoísmo como culpado. Egoísmo por não querer
entender o próximo, por ignorar o que o outro tem a dizer e por limitar nossa
visão a estereótipos variados que só faz mal a nós mesmos. Ao invés de criticar
por puro egocentrismo, achando que nossa opinião é a correta, podemos começar a
unir opiniões para chegar a verdades absolutas. A imprensa não é neutra e não
faz isso, então somente a sociedade pode tomar a iniciativa.
Todos
exigem avanço, mas poucos atuam de forma correta a ponto de permitir esse
avanço. Quero dizer que precisamos de mais consciência de comunidade e mais
humildade para reconhecer quando estamos sendo hipócritas. Exigimos o fim da
corrupção, mas idolatramos qualquer beneficio especial que nos dê vantagem (o
famoso jeitinho brasileiro). Exigimos seriedade dos governantes e somos
despreocupados com nossa cidade jogando lixo no chão e pichando as paredes.
Queremos velocidade na Justiça e ignoramos problemas urgentes das favelas que
acabam com vidas diariamente. Reclamamos da violência e da intolerância e
abastecemos as mesmas com ódio a nordestinos, favelados, elitistas e conservadores.
Queremos o fim dos assassinatos e desejamos a morte de semelhantes (políticos,
policiais, bandidos, etc.). E também queremos o bem do Brasil enquanto temos
vergonha do mesmo e criticamos tudo sem buscar entender os assuntos
profundamente e sem pretender encontrar nossa parte de responsabilidade nos
problemas nacionais.
Você está
com raiva da situação atual e não agüenta mais tudo isso? Quer fazer um favor
para o Brasil? Exija proporcionalmente a si mesmo tudo aquilo que quer dos
outros e faça aos outros somente o que você aceitaria que fizessem a você. Se
você não aceita a violência da Polícia, não fale da mesma com violência. Se você
não quer ser discriminado, não odeie quem te odeia. Se você quer parar de ser
roubado, não sonegue impostos, não suborne e não aceite vantagens na obtenção de
documentos. E se você não agüenta a ignorância do nosso povo, abra sua mente e
tente enxergar quando você atua com a mesma ignorância. É preciso olhar o próprio
umbigo com uma visão crítica e reformar nosso interior, só então é possível
criticar com autoridade moral suficiente para ser escutado. Vale para mim, para
você e para todos nós. Nossa sociedade agradece e eu também. Obrigado por me
escutar.
Rafael B.
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