1 Outro Ponto

1 Outro Ponto

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Desabafo

Eu sinceramente tentei equilibrar todos os lados. Há muitos meses tento entender meu país lendo páginas diferentes, comentários em diversos jornais e diferentes opiniões publicadas em sites de incrível variedade. Em minha investigação movida por curiosidade, fiz o possível por tentar entender opiniões contrárias e, de verdade, sinto uma tristeza profunda no coração. Encontrei-me com muito rancor, muita ignorância, muito preconceito e muita informação mal escrita e mal intencionada. Vi lados se acusando e brigando. Fiz o possível para não odiar nenhum e por não me sentir preso a nenhum deles. Como jornalista, tentei ser imparcial. E a imparcialidade me mostrou que ninguém é dono da verdade, ao mesmo tempo que todos são donos da sua verdade. Antes eu me identificava com uma ideia, hoje, não concordo com ninguém, mas sim com certas idéias de alguns e de outros. Preciso desse equilíbrio para poder pensar com claridade, se não caio em um partidarismo nojento que nos prende a visões limitadas e preconceituosas.

Vi e vejo muito ódio no coração. E não é exclusividade da extrema direita e seu já conhecido preconceito por negros, gays, etc. Porque também encontrei muito ódio na extrema esquerda e nos diversos tipos de centros políticos, tanto centro-direita como centro-esquerda. Os evangélicos atacam gays e esquerdistas e recebem ataques dos mesmos coletivos. Os conservadores denunciam um “Pé Grande” que eles chamam de ameaça comunista e mantém seu velho ódio fascista ao mesmo tempo que se vêem salvos por acreditar em Jesus. Os progressistas ridicularizam, com um egocentrismo angustiante, certas idéias conservadoras e acreditam que são os donos da verdade só porque têm apoio eleitoral, enquanto caem no erro ao defender cegamente e incondicionalmente um projeto de governo que logicamente tem vários defeitos. A polarização é tão grande que, hoje, quem defende um partido político ou uma ideia, simplesmente ignora o que o outro tem a dizer, o que logicamente causa uma discussão sem sentido ou diretamente uma troca de acusações sem nenhum proveito útil para nossa sociedade.

Que tipo de Democracia é essa? Parecem mais minis-Ditaduras onde todos (e ninguém) têm razão. Temos que escutar o outro. Ninguém é tão burro a ponto de não dizer algo proveitoso e ninguém é tão esperto a ponto de nunca se equivocar. Precisamos de mais humildade e parar de ver a farpa no olho alheio para começar a perceber as vigas que nos cegam e contribuem a criar um sistema de que tantos se envergonham, mas não se movem para mudá-lo. Precisamos parar com esse egocentrismo que faz tanto mal ao país. E, urgentemente, precisamos tentar entender e aceitar os outros. Podemos começar parando de xingar quem tem idéias diferentes. Isso vale para quem gosta de falar da “corja” comunista do Governo Federal e também para quem fala dos “coxinhas” reacionários. Só está isento quem se abstém de estereótipos limitados e limitantes.

Conhecemos nossos problemas e a culpa não é dos políticos que nos opomos. Quem defende o PT, diz que a culpa é do PSDB e vice-versa. E quem não defende ninguém, ataca todos. Ora, onde queremos chegar? O pessimismo vem dominando nossas cabeças e parece que nunca ficaremos contentes com o que temos hoje: um país com seus problemas e virtudes. Vejo muita indignação e pouca solução. Vejo muita raiva e pouca ação. E também vejo muito ódio e pouca compreensão. É muito triste ver estrangeiros acreditando no Brasil enquanto nós reclamamos e nos atacamos sem sequer tentar entender o outro.

O PT não é o partido mais corrupto da história e o PSDB não criou a desigualdade que temos hoje. Cada um tem suas virtudes e seus defeitos. Temos uma história em comúm e moramos no mesmo país. Não há razões para odiarmos um ao outro. A única razão que tem sentido é a que aponta o egoísmo como culpado. Egoísmo por não querer entender o próximo, por ignorar o que o outro tem a dizer e por limitar nossa visão a estereótipos variados que só faz mal a nós mesmos. Ao invés de criticar por puro egocentrismo, achando que nossa opinião é a correta, podemos começar a unir opiniões para chegar a verdades absolutas. A imprensa não é neutra e não faz isso, então somente a sociedade pode tomar a iniciativa.

Todos exigem avanço, mas poucos atuam de forma correta a ponto de permitir esse avanço. Quero dizer que precisamos de mais consciência de comunidade e mais humildade para reconhecer quando estamos sendo hipócritas. Exigimos o fim da corrupção, mas idolatramos qualquer beneficio especial que nos dê vantagem (o famoso jeitinho brasileiro). Exigimos seriedade dos governantes e somos despreocupados com nossa cidade jogando lixo no chão e pichando as paredes. Queremos velocidade na Justiça e ignoramos problemas urgentes das favelas que acabam com vidas diariamente. Reclamamos da violência e da intolerância e abastecemos as mesmas com ódio a nordestinos, favelados, elitistas e conservadores. Queremos o fim dos assassinatos e desejamos a morte de semelhantes (políticos, policiais, bandidos, etc.). E também queremos o bem do Brasil enquanto temos vergonha do mesmo e criticamos tudo sem buscar entender os assuntos profundamente e sem pretender encontrar nossa parte de responsabilidade nos problemas nacionais.

Você está com raiva da situação atual e não agüenta mais tudo isso? Quer fazer um favor para o Brasil? Exija proporcionalmente a si mesmo tudo aquilo que quer dos outros e faça aos outros somente o que você aceitaria que fizessem a você. Se você não aceita a violência da Polícia, não fale da mesma com violência. Se você não quer ser discriminado, não odeie quem te odeia. Se você quer parar de ser roubado, não sonegue impostos, não suborne e não aceite vantagens na obtenção de documentos. E se você não agüenta a ignorância do nosso povo, abra sua mente e tente enxergar quando você atua com a mesma ignorância. É preciso olhar o próprio umbigo com uma visão crítica e reformar nosso interior, só então é possível criticar com autoridade moral suficiente para ser escutado. Vale para mim, para você e para todos nós. Nossa sociedade agradece e eu também. Obrigado por me escutar.



Rafael B.

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