1 Outro Ponto

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quarta-feira, 23 de abril de 2014

A favela diz basta. Ninguém escuta.

A primeira cena do filme Cidade de Deus mostra um momento de tranqüilidade na favela; risadas, samba e algumas galinhas que estão presas ou sendo preparadas para a churrasqueira. Se trata de uma metáfora que, de tão profunda e correta, passa desapercebida para muitas pessoas. As galinhas representam os moradores de favelas. As que estão presas em gaiolas vêem como as “amigas” são degoladas e preparadas para o churrasco ali mesmo, na frente delas. Entretanto, estão presas e nada pode ser feito para fugir da morte, que parece iminente.

Uma delas escapa e começa a correr despertando gritos de “pega a galinha” dos membros da gangue do Zé Pequeno. Depois de quase ser atropelada por um camburão da Polícia, a pobre ave acaba encurralada quando encontra o protagonista Buscapé na sua frente. Atrás do simpático personagem e da galinha, um camburão de Polícia. A câmera então faz uma volta completa (criando uma das mais famosas imagens do cinema brasileiro) e mostra, como a galinha e Buscapé estão entre duas ameaças: os bandidos e os policiais. Estão encurralados. Não há para onde correr e o destino dos dois por um segundo parece ser o mesmo das galinhas degoladas.

Trata-se de uma realidade que, apesar de triste, é comum e considerada normal para uma parcela da população. Quem mora em favelas está como as galinhas: assiste a morte de seus semelhantes e nada pode fazer a não ser esperar sua própria morte ou correr. Se tenta correr, uma hora ou outra acaba encurraladas pela Polícia ou pelos bandidos, quando não por ambos, como a galinha perseguida do filme. Mas algo está mudando nas “gaiolas” brasileiras. Há tempos surgiu um sentimento de revolta que domina grande parte dos moradores de comunidades. A cada nova morte, mais indignação e protestos.



Os fatos

Ontem, três pessoas foram mortas no Rio de Janeiro. O caso que ganhou mais repercussão ocorreu nos Morros do Cantagalo e Pavão-Pavãozinho, onde o jovem dançarino do programa “Esquenta”, da Rede Globo, Douglas Rafael da Silva Pereira, teria sido espancado até a morte por PMs da UPP. O caso despertou revolta entre os moradores, que, com agressividade, protestaram na manhã seguinte entre as praias de Copacabana e Ipanema, onde se localiza o morro onde Douglas morava. Foram feitas barricadas e houve conflito com a Polícia, que supostamente baleou outros dois cidadãos no protesto: um menino de 12 anos identificado como Matheus e um homem de 27 anos chamado Edílson da Silva Santos.

Manifestação em Copacabana nessa terça-feira, 22 de abril


A versão da Polícia sobre o caso do dançarino Douglas aponta que o jovem caiu de um muro e morreu pelos ferimentos. Entretanto, os exames do IML indicam que "Hemorragia interna decorrente de laceração pulmonar decorrente de ferimento transfixante do tórax - ação perfuro contundente", ou seja, algo perfurou o tórax do dançarino. A Polícia não assume a responsabilidade, mas está sendo investigada enquanto os moradores a acusam de assassinato.

Hoje, um curta-metragem que tem o jovem assassinado como protagonista emociona os usuários da rede. No curta, Douglas sai de uma partida de futebol, caminha normalmente por sua comunidade e acaba encontrando dois policiais, que, depois de tratá-lo com a típica brutalidade de nossa PM, o acaba matando com um tiro. Os dois PMs fogem e deixam o jovem lá, o que assustadoramente corresponde com a realidade, pois Douglas foi encontrado no chão, morto.

Douglas, o dançarino assassinado


Pouco se falou sobre a morte de Edílson. Por outro lado, médios de comunicação alternativos como a Mídia Ninja publicaram informações dizendo que o menino de 12 baleado participava da manifestação e, juntamente com outras crianças, jogava pedras nos policiais. A líder comunitária Deise Carvalho foi entrevistada pelo jornal A Nova Democracia e contou que nunca tinha visto a comunidade dessa forma. “Eu tenho 43 anos e, pela primeira vez na minha vida, eu vi a dor nos olhos das pessoas. A revolta, o ódio nos olhos das crianças, porque ele era o símbolo das crianças como dançarino”. Segundo a mesma líder comunitária, “as crianças estavam revoltadas. Foram para as ruas e estavam jogando pedras. Até um policial falou: se as crianças podem jogar pedras, as crianças podem morrer”. E continua: “Isso não foi coisa de traficante. Se fosse, os moradores não iriam sentir essa revolta. A gente sabe que quando é uma morte pelo tráfico, os moradores se acuam. Eles sabem que de repente vai ter uma represália”.

Segundo a Mídia Ninja, que, hoje, é um dos poucos meios de comunicação realmente centrados nos problemas sociais do Rio de Janeiro, “moradores afirmam que a favela não tem saúde, escola e saneamento, mas está repleta de polícia. Bens de cidadania ausentes e insegurança disfarçada de pacificação. A miliciarização da UPP chega ao Pavão-Pavãozinho”.

Esse panorama é o das gaiolas no churrasco do século XXI: a Polícia, assim como os bandidos, também mata. Às galinhas, resta ter esperança e continuar a vida, além de, claro, continuar com os protestos, onde serão considerados vândalos e bandidos pelos nobres ignorantes e despreocupados de nossas capitais. A Polícia Militar possivelmente será investigada nesses casos. Entretanto, nossa Justiça continuará culpando a pare mais fraca, nesse caso, os PMs suspeitos. Enquanto isso, o Secretário de Segurança Pública e os altos escalões das Polícias Militar e Civil continuam acatando decisões injustas dos tribunais enquanto promovem medidas cruéis com as periferias de sua cidade. Enquanto o Brasil continuar culpando e punindo exclusivamente os mais pobres, não será possível tomar medidas profundas que solucionem um problema mais profundo ainda. O Brasil, nesse momento, está tratando um câncer com aspirina ao punir unicamente os PMs envolvidos em mortes e unicamente os bandidos pobres. Os ricos, como Eduardo Azeredo do PSDB ou André Vargas do PT, por outro lado, ficam impunes e continuam desfilando em seus carros de luxo.

As três pessoas assassinadas rapidamente serão esquecidas. Infelizmente, surgirão outros Douglas, Edílsons e Matheus. Quem acredita que não tem nada a ver com isso, simplesmente faz parte do problema, pois não exige mudanças que sejam para o bem comum e, dessa forma, aceita essas mortes injustificadas e dignas de ditadura militar. Como diz o Capitão Nascimento na segunda edição de seu filme que, apesar de ser fictício, também é muito real e atual: "Não é à toa que os traficantes, policiais e milicianos matam tanta gente nas favelas. Não é à toa que existem as favelas. Não é à toa que acontece tanto escândalo em Brasília, e que entra governo e sai governo, e não mudam as coisas. Pra mudar as coisas, vai demorar muito tempo. O sistema é foda. Ainda vai morrer muito inocente”.

Um comentário:

  1. muito bom o texto, fiquei muito emocionada ao ver o vídeo, aqui em Belém não é diferente, quantos jovens são mortos por policiais nas periferias daqui tbm, houve um extermínio de vários adolescentes um tempo atrás no distrito de Icoaraci em que foram colocados todos de joelho de costas para morrer...pelo menos agora temos outros meios para denunciar, que cada vez mais o povo se revolte contra essas arbitrariedades e esse extermínio patrocinado pelo estado!

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