1 Outro Ponto

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quarta-feira, 12 de março de 2014

A polarização política na Venezuela

A incrível polarização política que temos no Brasil e em muitos outros países nos dias de hoje causam muitas dúvidas em relação à Venezuela. Aqui em terras tupiniquins temos basicamente duas classes de opiniões que são perigosas: os que apóiam o regime do país bolivariano de forma quase cega e os que usam dados e fatos que ocorrem lá para atacar o governo daqui e espalhar o pessimismo pelas redes sociais. São perigosas porque ambas caem no erro de acreditar cegamente em seu ponto de vista. Com isso não mudam fontes, não buscam novos pontos de vista e não querem ver a realidade além do que acreditam.

Mais uma vez, devemos ter a cabeça aberta para entender mais ou menos o que está acontecendo lá. Se fechamos horizontes, teremos uma visão limitada. Então é preciso saber entender o outro lado, sem preconceitos e sem temores. Esquerdistas brasileiros apóiam o Governo de Maduro e denunciam manipulações da Grande Imprensa brasileira em notícias relacionadas com a Venezuela. Argumentam que o governo de Chávez diminuiu pobreza e que a desigualdade social também caiu graças às políticas centradas no proletariado. Esse índices não mentem. A Grande Imprensa sim. Manipula informações e imagens de acordo com seus interesses e, dessa forma, modelam a opinião pública como querem. Por isso é útil denunciar casos de manipulação em nossa imprensa. Mas os bloggeiros de esquerda não poderiam esquecer de condenar as práticas totalitárias do Governo da Venezuela e nem podem esquecer os horríveis índices de violência que assolam a sociedade e que são motivo de protesto nas ruas do país. É verdade que outros meios de comunicação se encarregam dessa condenação, mas os leitores dos blogs progressistas têm tanto direito de saber a verdade como a audiência da Grande Imprensa. Ocultar fatos nunca fez bem a ninguém.

Não podem esquecer que a criminalidade na Venezuela chegou a níveis insuportáveis. Desde 2003, a população não é informada sobre qualquer cifra oficial a respeito da quantidade de homicídios no país. Os números, segundo a ONG Observatório Venezuelano de Violência (OVV), chegaram a um patamar alarmante: em 2013 o país encerrou o ano com uma taxa de 24.763 mortes violentas, o equivalente a 79 mortos para cada 100 mil habitantes. No Brasil, os últimos dados do Mapa da Violência 2013 indicam que o País mantém uma taxa de 20,4 homicídios por cada 100 mil habitantes, sendo 36.792 assassinadas a tiros em 2010 (dados recolhidos de um artigo publicado na Carta Capital). A extrema polarização política no país complica a forma de atuação da polícia e condiciona as cifras publicadas, que muitas vezes são vistas como meras especulações da oposição.

A Venezuela hoje é, sim, um regime praticamente ditatorial. Considero que a partir do momento em que o Governo começa a calar vozes dissidentes, já temos um caso de totalitarismo. Tive um professor que foi expulso de lá por manifestar, em seu blogg, idéias contra o Governo de Chávez. Mas não, o Brasil não caminha no mesmo sentido, e regularizar a imprensa brasileira nos modelos criados por Franklin Martins não supõe um caso de censura, pois a proposta não afeta o conteúdo dos meios de comunicação (só proíbe a concessão de meios de comunicação à políticos e limita a extensão dos conglomerados, o que teoricamente daria espaço para outras vozes e pontos de vista). Temos no Brasil uma clara situação de oligopólio informativo que limita muito nossa opinião pública, o que, me desculpem, também não é nada democrático.

Se comparamos as condutas de ambos os países, veremos que seguem caminhos diferentes. Aqui, somos menos radicais. Já conversei com Venezuelanos e percebi o alto nível de partidarismo que trazem em seu discurso. E os nomes importantes no PT não têm essa visão cega nem pretendem transformar o Brasil em uma ditadura de esquerdas, ainda que o Foro de São Paulo possa parecer uma ameaça. Essa organização foi criada nos anos 90, se o objetivo dela realmente fosse o Golpe de Estado, já estaríamos com um regime “a la Chávez” implantado. Mas não é o caso.

A história da Venezuela é muito diferente da nossa. Ter um governo que simpatiza com ditaduras de esquerda não significa que iremos ter um sistema igual, assim como uma pessoa que tem amigos gays não necessariamente adotará práticas sociais desse tipo (desculpe a metáfora incomum, só pretendo mostrar um exemplo social). Essa idéia de que o Brasil vai sofrer um golpe esquerdista parece mais desespero da oposição em dar argumentos fortes contra o governo que realidade bem fundamentada. Por outro lado, em momentos de extrema violência em manifestações na Venezuela, e vista a tendência totalitarista do governo de Maduro, o Governo-Dilma deveria esquecer as afinidades políticas para se pronunciar contra as práticas ditatoriais do país, inclusive porque ela sofreu o terror da ditadura na própria pele, e deveria lutar para evitar acontecimentos parecidos em qualquer lugar do mundo. Mas o mundo da política tem interesses ocultos que não conhecemos.


A Venezuela é um ponto chave da cultura informativa mundial. Quem apóia o espectro político da esquerda, costuma apoiar o Governo de Maduro e faz o possível para desmentir informações mal enfocadas. Já quem opta por idéias da direita política, costuma condenar qualquer perspectiva positiva do país e alerta com ênfase o perigo de virarmos algo parecido com a Venezuela. Claro que existem casos em que todas hipóteses são consideradas, e esse é o que mais se aproxima da realidade, mas sem conseguir tocá-la, pois as informações que saem de lá já são inexatas e as que chegam aqui são ainda mais. Enquanto isso pessoas continuarão morrendo no pais de Maduro. É hora de esquecer preferências políticas e começar a priorizar o mais importante: o bem estar de todos.

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