Sentimos vergonha quando outras pessoas percebem
nossos defeitos. Uma pessoa tímida sente vergonha quando necessita falar em público
(como as pessoas podem perceber a timidez e a falta de confiança em si mesmo,
aparece a vergonha). Nunca sentimos vergonha dos aspectos positivos. Pelo contrário,
queremos ressaltá-los tentando aumentar nosso ego, o que teoricamente nos daria
mais confiança. Mas isso, na verdade, revela uma necessidade de ser
reconhecido. E essa necessidade não existiria se nós nos aceitássemos, se entendêssemos
que temos virtudes e limites. Não precisamos ocultar defeitos e ressaltar
virtudes. Dessa forma viveríamos preocupados com a reputação e esqueceríamos o
mais importante: aceitar a nós mesmos. Porque só isso nos permite o
auto-conhecimento e só isso nos da a oportunidade de melhorar.
Sei que esse texto parece falar de psicologia,
mas na verdade essa reflexão sobre a vergonha no ser humano não passa de uma metáfora.
Falo dela porque muitos brasileiros sentem vergonha do próprio país,
principalmente agora, quando estamos prestes a receber um dos principais
eventos do mundo. Essa visibilidade internacional vai por luz em questões que,
por serem negativas, são ocultas e causam vergonha em quem necessita aceitação
internacional. Ora, o Brasil não precisa mais disso. Na verdade, nunca
precisou. Não sentíamos vergonha quando éramos um dos poucos países que
aceitava escravos e sentimos agora que os turistas verão nossos problemas de
violência e desigualdade? Esquecemos que muitos dos problemas que temos aqui
foram acusados por eles, turistas, cujos antepassados eram colonizadores. Eles que
deveriam sentir vergonha por ter levado muitas riquezas que seriam úteis para
evitar a criação de uma sociedade tão desigual.
Talvez alguns sintam vergonha, mas na maioria
dos casos eles se importam mais em se vangloriar do passado glorioso que
tiveram. É o que eu dizia ao principio, ocultamos coisas para não sentir
vergonha e ressaltamos outras que nos afirmam e nos ajudam a ser aceitos. O
problema disso é que quando a verdade aparece (e ela aparece uma hora ou outra),
sentimos remorso, que é até pior que a vergonha, pois ela não perdoa a si
mesmo. Então o melhor a fazer é aceitar os problemas que temos e falar: sou
brasileiro, sou roubado, sou manipulado e enganado, mas esse é meu país e
fazemos o melhor que podemos. Na Europa é assim. Todos sabem que lá existe
racismo e muita violência de gênero e ninguém sente vergonha por isso. Tentam,
por outro lado, dar repercussão a casos desse tipo, com o objetivo de
conscientizar a opinião pública, que em diversos casos faz seu papel e exige
melhoras.
Fico triste cada vez que vejo alguém com pena
de morar no Brasil. Dizem que a Copa será péssima e têm vergonha de receber um
evento desses. Mas, pensando bem, a Copa não será boa nem ruim. Será um misto
de fatos positivos e negativos para o Brasil. Devemos aceitar a realidade como
ela é, caso contrario passaremos a vida ocultando coisas e ressaltando outras. É
melhor então encarar os problemas, alertar os turistas dos perigos que passamos
aqui, e mostrar ao mundo as injustiças que acontecem cada dia e que passam
impunes aos olhos da opinião pública. Mostrando à todos que nossas escolas são
péssimas, que temos pessoas morrendo nos corredores dos hospitais e que nossos
governos são profissionais em desviar dinheiro público, passaremos a contar não
com a indignação de 200 milhões de brasileiros, mas com a revolta de bilhões de
pessoas que, logicamente, não aceitarão as injustiças aqui cometidas.
Dessa forma iremos dizer “basta”! O primeiro
passo para resolver um problema é reconhecer o erro e ir atrás da solução. Sentir
vergonha nunca ajudou ninguém. Muito pelo contrário (pergunta a alguém tímido
se a vergonha já o ajudou em algo). Ressaltando nossas virtudes, atraímos gente
curiosa e mostrando nossos defeitos, influímos na opinião pública mundial. Somos
um povo batalhador e pacífico. Nunca precisamos de guerras, apesar do nosso “jeitinho
brasileiro”. Nosso povo sofre e ainda tem forças para sorrir com pequenas
coisas. É uma grande virtude que não minimiza os grandes defeitos. Temos taxas
de homicídios arrepiantes, nossas favelas ainda carecem de saneamento básico e
os Governantes se importam mais em ganhar eleições que em ajudar os
necessitados. E como solucionaremos esses problemas? Sentindo vergonha e
torcendo para que os estrangeiros não descubram nossos defeitos? Não!! É jogando
luz na verdade e mostrando ao mundo que queremos mudar. Alguns podem rir de nós.
Mas essas pessoas que riem são justamente aquelas que não conseguem ajudar nem
a si mesmos. Por outro lado, os que sintam compaixão farão o possível para
ajuadar. E existem diversas formas de ajudar, lembre-se das manifestações
internacionais de junho e verão como a opinião pública é importante em uma
Democracia.
Podemos ficar tristes com nossa situação, pois
ela é bem ruim em certos pontos. Mas nunca podemos sentir vergonha de ser
brasileiros. Nossa comunidade não merece isso. Pelo contrário. Merece que o
mundo saiba o que passamos. Merece pessoas lutando pelo que deveriam ser
direitos e que, hoje, são simplesmente determinações ignoradas. Merecemos
serviços públicos decentes pelo que pagamos de impostos e merecemos atenção
internacional, que saberá o que temos de bom e nos ajudará a solucionar o que
temos de ruim.
Então a próxima vez que aparecer um ponto ruim
sobre o Brasil, vamos tentar não dizer “imagina na Copa”. Vamos tentar pensar “tomara
que isso mude com a Copa”. E o que não
for possível mudar (como por exemplo, do dinheiro gasto em estádios), deve ser
lembrado até as próximas eleições, quando a resposta deve vir das urnas. A
opinião pública também têm influência nessas decisões. E nesse ano de Copa de
Mundo e de eleições, a opinião de mais de 6 bilhões de pessoas importará mais
do que nunca, pode acreditar.
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