1 Outro Ponto

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terça-feira, 11 de março de 2014

Não adianta nada ter vergonha do Brasil

Sentimos vergonha quando outras pessoas percebem nossos defeitos. Uma pessoa tímida sente vergonha quando necessita falar em público (como as pessoas podem perceber a timidez e a falta de confiança em si mesmo, aparece a vergonha). Nunca sentimos vergonha dos aspectos positivos. Pelo contrário, queremos ressaltá-los tentando aumentar nosso ego, o que teoricamente nos daria mais confiança. Mas isso, na verdade, revela uma necessidade de ser reconhecido. E essa necessidade não existiria se nós nos aceitássemos, se entendêssemos que temos virtudes e limites. Não precisamos ocultar defeitos e ressaltar virtudes. Dessa forma viveríamos preocupados com a reputação e esqueceríamos o mais importante: aceitar a nós mesmos. Porque só isso nos permite o auto-conhecimento e só isso nos da a oportunidade de melhorar.

Sei que esse texto parece falar de psicologia, mas na verdade essa reflexão sobre a vergonha no ser humano não passa de uma metáfora. Falo dela porque muitos brasileiros sentem vergonha do próprio país, principalmente agora, quando estamos prestes a receber um dos principais eventos do mundo. Essa visibilidade internacional vai por luz em questões que, por serem negativas, são ocultas e causam vergonha em quem necessita aceitação internacional. Ora, o Brasil não precisa mais disso. Na verdade, nunca precisou. Não sentíamos vergonha quando éramos um dos poucos países que aceitava escravos e sentimos agora que os turistas verão nossos problemas de violência e desigualdade? Esquecemos que muitos dos problemas que temos aqui foram acusados por eles, turistas, cujos antepassados eram colonizadores. Eles que deveriam sentir vergonha por ter levado muitas riquezas que seriam úteis para evitar a criação de uma sociedade tão desigual.

Talvez alguns sintam vergonha, mas na maioria dos casos eles se importam mais em se vangloriar do passado glorioso que tiveram. É o que eu dizia ao principio, ocultamos coisas para não sentir vergonha e ressaltamos outras que nos afirmam e nos ajudam a ser aceitos. O problema disso é que quando a verdade aparece (e ela aparece uma hora ou outra), sentimos remorso, que é até pior que a vergonha, pois ela não perdoa a si mesmo. Então o melhor a fazer é aceitar os problemas que temos e falar: sou brasileiro, sou roubado, sou manipulado e enganado, mas esse é meu país e fazemos o melhor que podemos. Na Europa é assim. Todos sabem que lá existe racismo e muita violência de gênero e ninguém sente vergonha por isso. Tentam, por outro lado, dar repercussão a casos desse tipo, com o objetivo de conscientizar a opinião pública, que em diversos casos faz seu papel e exige melhoras.

Fico triste cada vez que vejo alguém com pena de morar no Brasil. Dizem que a Copa será péssima e têm vergonha de receber um evento desses. Mas, pensando bem, a Copa não será boa nem ruim. Será um misto de fatos positivos e negativos para o Brasil. Devemos aceitar a realidade como ela é, caso contrario passaremos a vida ocultando coisas e ressaltando outras. É melhor então encarar os problemas, alertar os turistas dos perigos que passamos aqui, e mostrar ao mundo as injustiças que acontecem cada dia e que passam impunes aos olhos da opinião pública. Mostrando à todos que nossas escolas são péssimas, que temos pessoas morrendo nos corredores dos hospitais e que nossos governos são profissionais em desviar dinheiro público, passaremos a contar não com a indignação de 200 milhões de brasileiros, mas com a revolta de bilhões de pessoas que, logicamente, não aceitarão as injustiças aqui cometidas.

Dessa forma iremos dizer “basta”! O primeiro passo para resolver um problema é reconhecer o erro e ir atrás da solução. Sentir vergonha nunca ajudou ninguém. Muito pelo contrário (pergunta a alguém tímido se a vergonha já o ajudou em algo). Ressaltando nossas virtudes, atraímos gente curiosa e mostrando nossos defeitos, influímos na opinião pública mundial. Somos um povo batalhador e pacífico. Nunca precisamos de guerras, apesar do nosso “jeitinho brasileiro”. Nosso povo sofre e ainda tem forças para sorrir com pequenas coisas. É uma grande virtude que não minimiza os grandes defeitos. Temos taxas de homicídios arrepiantes, nossas favelas ainda carecem de saneamento básico e os Governantes se importam mais em ganhar eleições que em ajudar os necessitados. E como solucionaremos esses problemas? Sentindo vergonha e torcendo para que os estrangeiros não descubram nossos defeitos? Não!! É jogando luz na verdade e mostrando ao mundo que queremos mudar. Alguns podem rir de nós. Mas essas pessoas que riem são justamente aquelas que não conseguem ajudar nem a si mesmos. Por outro lado, os que sintam compaixão farão o possível para ajuadar. E existem diversas formas de ajudar, lembre-se das manifestações internacionais de junho e verão como a opinião pública é importante em uma Democracia.

Podemos ficar tristes com nossa situação, pois ela é bem ruim em certos pontos. Mas nunca podemos sentir vergonha de ser brasileiros. Nossa comunidade não merece isso. Pelo contrário. Merece que o mundo saiba o que passamos. Merece pessoas lutando pelo que deveriam ser direitos e que, hoje, são simplesmente determinações ignoradas. Merecemos serviços públicos decentes pelo que pagamos de impostos e merecemos atenção internacional, que saberá o que temos de bom e nos ajudará a solucionar o que temos de ruim.


Então a próxima vez que aparecer um ponto ruim sobre o Brasil, vamos tentar não dizer “imagina na Copa”. Vamos tentar pensar “tomara que isso mude com a Copa”.  E o que não for possível mudar (como por exemplo, do dinheiro gasto em estádios), deve ser lembrado até as próximas eleições, quando a resposta deve vir das urnas. A opinião pública também têm influência nessas decisões. E nesse ano de Copa de Mundo e de eleições, a opinião de mais de 6 bilhões de pessoas importará mais do que nunca, pode acreditar.

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