Os
protestos de junho do ano passado e os atuais deram provas de que a Polícia
Militar é praticamente a mesma da Ditadura. Prisões autoritárias, abusos de
poder, agressões sem sentido e provas plantadas deram origem a relatos
indignados que provêem principalmente da classe média. A Polícia que repreende
os manifestantes constantemente é a mesma que mata pessoas sem pudor na
periferia. Tanto manifestantes quanto os moradores de comunidades carentes não
agüentam mais essa corporação que teoricamente existe para proteger e servir. A
prática é diferente. Claro que existem exceções, pois às vezes aparece um
policial correto; poucas regras e definições são corretas no plano geral. Mas,
hoje, a Polícia Militar trata a maioria da população como inimigo.
Ao olhar um
policial militar o que sentimos? Achamos que eles vão nos ajudar ou complicar
nossa vida? Eu sinceramente tenho que me esforçar para acreditar que aquele
policial está lá para proteger. A imagem dele não transmite confiança ou
segurança. Muito pelo contrário. Mas não culpo exclusivamente a Polícia, pois
ela, assim como a classe política, é um reflexo da sociedade. A famosa frase
“os povos têm governantes que merecem” também pode se aplicar aos responsáveis
pela ordem. Temos a Polícia que merecemos, por não exigir paz, respeito e
dignidade para ninguém (a não ser nós mesmos). A única forma de mudar esse
panorama é reformando nossas idéias. Parece bobeira, mas não é.
O Brasil
costuma dar valor a idéias egoístas e superficiais. Achamos legal o “jeitinho
brasileiro” que facilita tudo e desprezamos quem se esforça para conseguir uns
trocados; queremos ser VIPS na balada, mas não exigimos comida para quem passa
fome; reclamamos da conduta policial nas manifestações, mas aplaudimos quando a
Polícia mata “suspeitos” nas favelas; queremos paz em outros continentes e
desejamos a morte de terceiros de nosso país; queremos ficar milionários, mas
recusamos uma esmola pedida com desespero; condenamos a corrupção pública e não
reclamamos da privada, que acontece ao nosso lado e não queremos ver; queremos
que o país melhore, mas pretendemos derrubar os Governos que não são
controlados por nossos partidos e reclamamos das circunstancias atuais sem
pretender mudar costumes que nos trouxeram onde estamos.
Com a
Polícia não é diferente. Ela pretende ter condições de país desenvolvido, mas não
quer abrir mão de certas práticas e pensamentos de terceiro mundo. Dessa forma é
impossível mudar, basicamente porque não queremos! Somente reclamar das situações
não adianta. Temos que refletir e mudar atos e pensamentos que favorecem o
aparecimento de atrocidades como a mulher arrastada pela viatura. Não é por
acaso que coisas assim acontecem. Existem circunstâncias que criam essas situações.
A marginalização das favelas é uma delas. O ódio que sentimos de certos grupos é
outra.
Vivemos em
uma guerra oculta. As favelas comemoram mortes de policiais e de pessoas ricas simplesmente
porque nós fazemos o mesmo. É um olho por olho, dente por dente em que
acabaremos todos cegos e banguelas e ainda vamos desejar a morte dos outros. No
fundo lutamos pelo mesmo: melhores condições de vida. Mas não percebemos que
estamos lutando uns contra os outros! Nesse sentido, qualquer pensamento que gere
um sentido de comunidade nos ajuda muito mais do que a morte de alguém. Não
adianta mudar a Polícia se não mudamos a forma como a sociedade reaciona às
suas ações. Todos os dias pessoas morrem injustamente em todas as partes. Se
desejamos justiça e questionamos possíveis abusos, sem nos importar quem é o
autor, estaremos dando um passo à um Brasil melhor. Não importa se foi o
bandido que matou o civil, o policial que matou o bandido ou o policial que matou
o civil: matar é errado. Nunca foi nem nunca será um ato digno ou respeitável. Estamos
com valores invertidos se acreditamos que essa é a solução para algo.
Se você, leitor,
começar a condenar qualquer tipo de morte, sua família verá o exemplo e pode
começar a pensar igual, depois seus amigos, conhecidos, e chegará uma hora que
até a imprensa vai condenar qualquer tipo de dano à terceiros. Não adianta ser egoísta
e reclamar somente dos casos que estão próximos a nós, pois já fazemos isso e
sabemos que não funciona. Devemos então condenar o que está errado. Tudo que
está errado. E aplaudir somente o que está certo. Qualquer morte injusta é
condenável, não importa quem matou e não importa quem morreu. Por isso é errado
surrar um suspeito de roubo (é muito pior bater em alguém que roubar, acreditem),
essa (in)justiça com as próprias mãos é outro reflexo da crise de valores em
nossa sociedade. Mas isso é outro assunto complexo que exige atenção exclusiva,
pois se trata de um tema polêmico.
Enfim, se
nos esforçamos e começamos a dar valor ao que realmente tem valor: a vida
humana e suas condições (e não seu status); pouco a pouco iremos caminhando à
um estado civilizado e correto. Se nossas circunstancias não são corretas é
porque nossos valores também não são. Matar todos nossos políticos não é a
solução e matar policiais ou bandidos só piora a situação. Mas, condenando
qualquer tipo de crime e práticas abusivas, iremos nutrir a sociedade com
valores que serão de bom proveito no futuro. E, acreditem, esses valores se
espalham rapidamente. Só precisamos deixar que eles toquem nossa consciência;
então veremos mais claramente o que é certo e errado. O resto acontece com luta
e certeza no que se defende. Está na hora de mudar nossos valores para poder
mudar nosso mundo. Caso contrário vamos continuar nessa caminhada que nos leva
à terra de cegos e banguelas. E o que a sociedade tem a ganhar com isso? Sangue
e mais intolerância. Absolutamente nada que realmente tenha valor. A decisão é
sua, minha e nossa. As conseqüências de nossos atos também são suas, minhas e
nossas. Depende de cada um.
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