1 Outro Ponto

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quarta-feira, 19 de março de 2014

A sociedade tem a Polícia que merece, então é preciso mudar

Os protestos de junho do ano passado e os atuais deram provas de que a Polícia Militar é praticamente a mesma da Ditadura. Prisões autoritárias, abusos de poder, agressões sem sentido e provas plantadas deram origem a relatos indignados que provêem principalmente da classe média. A Polícia que repreende os manifestantes constantemente é a mesma que mata pessoas sem pudor na periferia. Tanto manifestantes quanto os moradores de comunidades carentes não agüentam mais essa corporação que teoricamente existe para proteger e servir. A prática é diferente. Claro que existem exceções, pois às vezes aparece um policial correto; poucas regras e definições são corretas no plano geral. Mas, hoje, a Polícia Militar trata a maioria da população como inimigo.

Ao olhar um policial militar o que sentimos? Achamos que eles vão nos ajudar ou complicar nossa vida? Eu sinceramente tenho que me esforçar para acreditar que aquele policial está lá para proteger. A imagem dele não transmite confiança ou segurança. Muito pelo contrário. Mas não culpo exclusivamente a Polícia, pois ela, assim como a classe política, é um reflexo da sociedade. A famosa frase “os povos têm governantes que merecem” também pode se aplicar aos responsáveis pela ordem. Temos a Polícia que merecemos, por não exigir paz, respeito e dignidade para ninguém (a não ser nós mesmos). A única forma de mudar esse panorama é reformando nossas idéias. Parece bobeira, mas não é.

O Brasil costuma dar valor a idéias egoístas e superficiais. Achamos legal o “jeitinho brasileiro” que facilita tudo e desprezamos quem se esforça para conseguir uns trocados; queremos ser VIPS na balada, mas não exigimos comida para quem passa fome; reclamamos da conduta policial nas manifestações, mas aplaudimos quando a Polícia mata “suspeitos” nas favelas; queremos paz em outros continentes e desejamos a morte de terceiros de nosso país; queremos ficar milionários, mas recusamos uma esmola pedida com desespero; condenamos a corrupção pública e não reclamamos da privada, que acontece ao nosso lado e não queremos ver; queremos que o país melhore, mas pretendemos derrubar os Governos que não são controlados por nossos partidos e reclamamos das circunstancias atuais sem pretender mudar costumes que nos trouxeram onde estamos.

Com a Polícia não é diferente. Ela pretende ter condições de país desenvolvido, mas não quer abrir mão de certas práticas e pensamentos de terceiro mundo. Dessa forma é impossível mudar, basicamente porque não queremos! Somente reclamar das situações não adianta. Temos que refletir e mudar atos e pensamentos que favorecem o aparecimento de atrocidades como a mulher arrastada pela viatura. Não é por acaso que coisas assim acontecem. Existem circunstâncias que criam essas situações. A marginalização das favelas é uma delas. O ódio que sentimos de certos grupos é outra.

Vivemos em uma guerra oculta. As favelas comemoram mortes de policiais e de pessoas ricas simplesmente porque nós fazemos o mesmo. É um olho por olho, dente por dente em que acabaremos todos cegos e banguelas e ainda vamos desejar a morte dos outros. No fundo lutamos pelo mesmo: melhores condições de vida. Mas não percebemos que estamos lutando uns contra os outros! Nesse sentido, qualquer pensamento que gere um sentido de comunidade nos ajuda muito mais do que a morte de alguém. Não adianta mudar a Polícia se não mudamos a forma como a sociedade reaciona às suas ações. Todos os dias pessoas morrem injustamente em todas as partes. Se desejamos justiça e questionamos possíveis abusos, sem nos importar quem é o autor, estaremos dando um passo à um Brasil melhor. Não importa se foi o bandido que matou o civil, o policial que matou o bandido ou o policial que matou o civil: matar é errado. Nunca foi nem nunca será um ato digno ou respeitável. Estamos com valores invertidos se acreditamos que essa é a solução para algo.

Se você, leitor, começar a condenar qualquer tipo de morte, sua família verá o exemplo e pode começar a pensar igual, depois seus amigos, conhecidos, e chegará uma hora que até a imprensa vai condenar qualquer tipo de dano à terceiros. Não adianta ser egoísta e reclamar somente dos casos que estão próximos a nós, pois já fazemos isso e sabemos que não funciona. Devemos então condenar o que está errado. Tudo que está errado. E aplaudir somente o que está certo. Qualquer morte injusta é condenável, não importa quem matou e não importa quem morreu. Por isso é errado surrar um suspeito de roubo (é muito pior bater em alguém que roubar, acreditem), essa (in)justiça com as próprias mãos é outro reflexo da crise de valores em nossa sociedade. Mas isso é outro assunto complexo que exige atenção exclusiva, pois se trata de um tema polêmico.


Enfim, se nos esforçamos e começamos a dar valor ao que realmente tem valor: a vida humana e suas condições (e não seu status); pouco a pouco iremos caminhando à um estado civilizado e correto. Se nossas circunstancias não são corretas é porque nossos valores também não são. Matar todos nossos políticos não é a solução e matar policiais ou bandidos só piora a situação. Mas, condenando qualquer tipo de crime e práticas abusivas, iremos nutrir a sociedade com valores que serão de bom proveito no futuro. E, acreditem, esses valores se espalham rapidamente. Só precisamos deixar que eles toquem nossa consciência; então veremos mais claramente o que é certo e errado. O resto acontece com luta e certeza no que se defende. Está na hora de mudar nossos valores para poder mudar nosso mundo. Caso contrário vamos continuar nessa caminhada que nos leva à terra de cegos e banguelas. E o que a sociedade tem a ganhar com isso? Sangue e mais intolerância. Absolutamente nada que realmente tenha valor. A decisão é sua, minha e nossa. As conseqüências de nossos atos também são suas, minhas e nossas. Depende de cada um.

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