Muitas vezes entrei nos trens de Cercanias
Renfe de Madri e comecei a imaginar como seria presenciar um atentado
terrorista, como o que sucedeu 10 anos atrás perto da estação de Atocha, a mais usada
e provavelmente mais conhecida de Madri. Eu começava analisando o trem: alta
tecnologia, espaço para sentar e velocidade européia. Imaginava todos os
passageiros sentados, como eu mesmo estava, e conseguia até enxergar a bolsa
que continha bombas, que foi deixada no compartimento em cima das cadeiras. Então
imaginava a cena fatal. Um segundo estava tudo bem. Explosão. E a realidade
muda completamente. Quem estivesse perto das malas não poderia sobreviver e quem
estivesse em outro vagão não entenderia bem o que acabava de acontecer. Um
segundo que muda tudo: pessoas sãs que se machucam, pessoas machucadas que
morrem. O poder de fogo realmente assusta.
Na verdade era impossível imaginar exatamente realmente
o que aconteceu. Eu fazia suposições e me baseava ilusões realistas para tentar
entender o que tinha acontecido no dia 11 de março de 2004. Mas nunca
conseguiria me aproximar da cruel realidade: o país onde morei, minha segunda
casa, tinha sido alvo de um atentado terrorista. Quando cheguei na capital da
Espanha, em 2008, parecia que eram histórias inventadas. A realidade européia
chocava com as imagens e eu simplesmente não entendia como um dia ensolarado
virou um dia marcado por um atentado terrorista. Relatos de conhecidos deixavam
meus pelos arrepiados. Um senhor de uns 40 anos que estudava comigo na
faculdade e trabalhava no metrô de Madri relatou o que viveu naquele dia.
Escutou a explosão e só viu o caos espalhado nos trilhos. Ajudou a levar
feridos enquanto via pessoas sem membros sendo carregadas às pressas. Viu o
trem completamente destroçado e uma imagem que parecia um filme de guerra
americano, mas que, na verdade, infelizmente era pura realidade e dor.
Lembro de ter visto pela televisão as imagens
chocantes. Mas em 2004 eu nem imaginava que iria morar naquela cidade, e o caso
passou despercebido para mim, como costuma acontecer com as desgraças que
sucedem em países distantes. Mas em 2008 foi fácil sentir as dores de quem
estava lá, inclusive porque eles falavam um idioma que eu entendia. Passei
cinco aniversários do atentado relembrando os fatos e escutando relatos
dolorosos. Os depoimentos das vítimas humanizam o atentado, e, com eles, nós
incorporamos as dores de quem sentiu a bomba estourando próxima à própria pele.
Os relatos das famílias das vítimas também dão um “soco” de realidade na cara
de quem escuta. Filhos que pegaram o trem sem saber que seria a última viagem
que fariam. Mulheres grávidas que, ao sentir o calor das bombas, só pensaram
nos próprios filhos. E homens caridosos que, vendo a seriedade do caso, usaram
todas suas forças para carregar feridos até pavilhões esportivos próximos,
considerando que os hospitais se encheram rapidamente.
Depois de um tempo morando em Madri, entendi
perfeitamente o que tinha acontecido. Era estranho ver os policiais da cidade
onde você mora resgatando pessoas nos trilhos da rede de transporte que você
usa. No Brasil nunca aconteceu algo parecido, acho que por isso minha cabeça não
aceitava aquilo como realidade. Mas, como eu disse antes, os relatos de cada
pessoa choca e dão um duro banho de realidade. Se três bombas causavam um estrago
tão grande, como seria ver um avião batendo no principal prédio da nossa
cidade? Hoje sei que, por mais que as imagens mostrem a realidade pura, somente
quem estava lá sabe bem como foi viver aquele inferno.
O espetáculo midiático dos dias que
prosseguiram o atentado piorou a situação. A poucos dias das eleições, o autor
dos atentados determinaria os culpados indiretos, o que teria uma influencia
enorme nos resultados, considerando que o presidente Aznar apoiava a campanha
de Bush no Oriente Médio. A verdade teoricamente mudaria o resultado das eleições,
e na prática foi o que aconteceu. Aznar perdeu nas urnas e Zapatero começou seu
mandato que duraria até 2011, quando os resultados econômicos da crise
anteciparam as eleições e colocaram Mariano Rajoy na presidência.
O tempo passa, mas os atentados ainda
impressionam e me fazem pensar: até onde o ser humano pode chegar para
conseguir o que quer? Não condeno diretamente os terroristas, pois não conheço os
motivos que animaram eles a deixar três bolsas carregadas de explosivos nos
trens da cidade que amo. Acredito que eles queriam fazer, na Europa, o que
sentem todo dia nas cidades que eles amam. Não passa de uma suposição, mas para
mim é uma explicação que serve de justificativa, porque sinceramente não
acredito que alguém possa fazer um atentado desse nível por prazer.
Já dizia Maquiavel que na política o fim
justifica os meios. Governantes do mundo inteiro usam essa frase constantemente
para justificar seus atos repugnantes. Acredito que os terroristas tenham feito
o mesmo. Tinham um objetivo e lutariam até a morte para conseguir, sem se
importar com as conseqüências. Todos os dias vemos nos jornais notícias horríveis
sobre a guerra na Síria ou na África. Como disse antes, a distancia nos torna
frios e, com ela, não sentimos as dores de pessoas distantes. Não sentimos as
dores de quem está lá. Mas posso assegurar que ao ir a esses lugares, da mesma
forma como eu fui para Madri e vivi a dura realidade, nosso coração amolece e
sentimos que nenhum fim justifica meios horripilantes e cheios de malícia. E
essa crítica também vale para nós, brasileiros, que costumamos usar meios
truculentos para obter fins que só são úteis para nosso ego.
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