1 Outro Ponto

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terça-feira, 11 de março de 2014

Três bombas em Madri, dura realidade

Muitas vezes entrei nos trens de Cercanias Renfe de Madri e comecei a imaginar como seria presenciar um atentado terrorista, como o que sucedeu 10 anos atrás perto da estação de Atocha, a mais usada e provavelmente mais conhecida de Madri. Eu começava analisando o trem: alta tecnologia, espaço para sentar e velocidade européia. Imaginava todos os passageiros sentados, como eu mesmo estava, e conseguia até enxergar a bolsa que continha bombas, que foi deixada no compartimento em cima das cadeiras. Então imaginava a cena fatal. Um segundo estava tudo bem. Explosão. E a realidade muda completamente. Quem estivesse perto das malas não poderia sobreviver e quem estivesse em outro vagão não entenderia bem o que acabava de acontecer. Um segundo que muda tudo: pessoas sãs que se machucam, pessoas machucadas que morrem. O poder de fogo realmente assusta.

Na verdade era impossível imaginar exatamente realmente o que aconteceu. Eu fazia suposições e me baseava ilusões realistas para tentar entender o que tinha acontecido no dia 11 de março de 2004. Mas nunca conseguiria me aproximar da cruel realidade: o país onde morei, minha segunda casa, tinha sido alvo de um atentado terrorista. Quando cheguei na capital da Espanha, em 2008, parecia que eram histórias inventadas. A realidade européia chocava com as imagens e eu simplesmente não entendia como um dia ensolarado virou um dia marcado por um atentado terrorista. Relatos de conhecidos deixavam meus pelos arrepiados. Um senhor de uns 40 anos que estudava comigo na faculdade e trabalhava no metrô de Madri relatou o que viveu naquele dia. Escutou a explosão e só viu o caos espalhado nos trilhos. Ajudou a levar feridos enquanto via pessoas sem membros sendo carregadas às pressas. Viu o trem completamente destroçado e uma imagem que parecia um filme de guerra americano, mas que, na verdade, infelizmente era pura realidade e dor.

Lembro de ter visto pela televisão as imagens chocantes. Mas em 2004 eu nem imaginava que iria morar naquela cidade, e o caso passou despercebido para mim, como costuma acontecer com as desgraças que sucedem em países distantes. Mas em 2008 foi fácil sentir as dores de quem estava lá, inclusive porque eles falavam um idioma que eu entendia. Passei cinco aniversários do atentado relembrando os fatos e escutando relatos dolorosos. Os depoimentos das vítimas humanizam o atentado, e, com eles, nós incorporamos as dores de quem sentiu a bomba estourando próxima à própria pele. Os relatos das famílias das vítimas também dão um “soco” de realidade na cara de quem escuta. Filhos que pegaram o trem sem saber que seria a última viagem que fariam. Mulheres grávidas que, ao sentir o calor das bombas, só pensaram nos próprios filhos. E homens caridosos que, vendo a seriedade do caso, usaram todas suas forças para carregar feridos até pavilhões esportivos próximos, considerando que os hospitais se encheram rapidamente.

Depois de um tempo morando em Madri, entendi perfeitamente o que tinha acontecido. Era estranho ver os policiais da cidade onde você mora resgatando pessoas nos trilhos da rede de transporte que você usa. No Brasil nunca aconteceu algo parecido, acho que por isso minha cabeça não aceitava aquilo como realidade. Mas, como eu disse antes, os relatos de cada pessoa choca e dão um duro banho de realidade. Se três bombas causavam um estrago tão grande, como seria ver um avião batendo no principal prédio da nossa cidade? Hoje sei que, por mais que as imagens mostrem a realidade pura, somente quem estava lá sabe bem como foi viver aquele inferno.

O espetáculo midiático dos dias que prosseguiram o atentado piorou a situação. A poucos dias das eleições, o autor dos atentados determinaria os culpados indiretos, o que teria uma influencia enorme nos resultados, considerando que o presidente Aznar apoiava a campanha de Bush no Oriente Médio. A verdade teoricamente mudaria o resultado das eleições, e na prática foi o que aconteceu. Aznar perdeu nas urnas e Zapatero começou seu mandato que duraria até 2011, quando os resultados econômicos da crise anteciparam as eleições e colocaram Mariano Rajoy na presidência.

O tempo passa, mas os atentados ainda impressionam e me fazem pensar: até onde o ser humano pode chegar para conseguir o que quer? Não condeno diretamente os terroristas, pois não conheço os motivos que animaram eles a deixar três bolsas carregadas de explosivos nos trens da cidade que amo. Acredito que eles queriam fazer, na Europa, o que sentem todo dia nas cidades que eles amam. Não passa de uma suposição, mas para mim é uma explicação que serve de justificativa, porque sinceramente não acredito que alguém possa fazer um atentado desse nível por prazer.


Já dizia Maquiavel que na política o fim justifica os meios. Governantes do mundo inteiro usam essa frase constantemente para justificar seus atos repugnantes. Acredito que os terroristas tenham feito o mesmo. Tinham um objetivo e lutariam até a morte para conseguir, sem se importar com as conseqüências. Todos os dias vemos nos jornais notícias horríveis sobre a guerra na Síria ou na África. Como disse antes, a distancia nos torna frios e, com ela, não sentimos as dores de pessoas distantes. Não sentimos as dores de quem está lá. Mas posso assegurar que ao ir a esses lugares, da mesma forma como eu fui para Madri e vivi a dura realidade, nosso coração amolece e sentimos que nenhum fim justifica meios horripilantes e cheios de malícia. E essa crítica também vale para nós, brasileiros, que costumamos usar meios truculentos para obter fins que só são úteis para nosso ego.

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