O primeiro assunto da série especial é sobre a pornô-vingança, que surge
quando um ex-namorado publica vídeos íntimos de sua antiga parceira na Internet.
Trata-se de uma prática que vem crescendo com a propagação da Internet. Aplicativos
como o Whatsapp ou sites próprios são perfeitos para disseminar vídeos em que um casal conhecido aparece
fazendo sexo. O problema surge com a exposição da intimidade e a forma que a
sociedade interpreta esses vídeos. Geralmente, as pessoas tendem a olhar o
homem do vídeo como um conquistador e malandro, enquanto olham a mulher como
uma galinha ou inconsequente. A posição dos dois é a mesma: ambos aparecem no vídeo.
Mas somente um é condenado socialmente. Por que?
O homem que passa um vídeo da sua ex-parceira
geralmente tem a intenção de vingança, o que demonstra um claro desequilíbrio emocional.
Em outros casos, ele publica o vídeo só para “se achar”, afinal, o homem
conquistador é admirado em nossa sociedade. Mas isso também não é um sinal de equilíbrio
e auto-aceitação. Enfim, o motivo pelo qual o homem publica o vídeo é
praticamente problema dele e daqueles que idolatram esse tipo de ações, mas, a
partir do momento em que ele publica o material, ele involucra uma terceira pessoa, e então aparece um grande desafio para
a ex-parceira: superar toda a humilhação e críticas que virão. É um desafio
grande para uma adolescente. Será chamada de puta, piranha, vagabunda, etc. Dirão
que ela só serve para "dar", que a culpa é dela por aparecer pelada e que ela podia ter imaginado que ele
faria isso. Esse último ponto é até verdade, mas o amor não tem essa lógica. Ele
se baseia na confiança e no risco. Confiam e arriscam ser traído e enganado,
que é o caso dessas meninas.
A sociedade deve rever seus valores. Por que
nesses casos o ego do homem é exaltado e o da mulher é pisoteado? O que o homem
fez de diferente para receber um tratamento diferente? O homem galinha é visto
como um herói e referência no Brasil. A mulher galinha é vista como objeto. O
que causa essa diferença? O modo geral que a sociedade vê certas práticas é o
que determina seus valores. Todos os dias somos bombardeados com publicidades
que mostram a mulher como um objeto a ser conquistado. “Com esse desodorante
você conseguirá mulheres maravilhosas”. E o que acontece quando um objeto é
feio ou tem uma reputação ruim? As pessoas menosprezam e falam mal dele. É
exatamente isso que acontece nesses casos.
O problema não é a publicação de um vídeo íntimo.
O problema é como a sociedade trata as pessoas desses vídeos, o que condiciona
a reação ao mesmo. A sociedade no geral olha a realidade como se ela fosse um
comercial de tevê: o homem tem sucesso porque conquistou e levou a mulher para
a cama (o que, segundo comerciais, é o principal objetivo de um homem na Terra),
e a mulher, exposta e humilhada, é vista como um objeto impuro e sem função. A
publicidade muda valores corretos para conseguir mais vendas, enquanto a
sociedade engole esses valores e os adapta à sua forma de ver o mundo. É uma
manipulação claríssima e oportunista (os publicitários aproveitam essa brecha e
nos ajudam a desenvolver valores incorretos para obter mais lucros).
O caso piora se a mulher exposta não acredita
em si mesmo e incorpora as ofensas. Nesse caso, que costuma acontecer com
adolescentes, ela vem abaixo e começa a pensar um meio extremo para solucionar
uma situação igualmente extrema. É então que aparece a ideia do suicídio. E é
então que a sociedade deve entender como é responsável por esses suicídios. Essas
meninas não se matam porque são fracas ou impuras. Nem porque acham que estão
erradas. Elas se matam porque não conseguem enxergar saída no meio de tanta
hostilidade e humilhação. Ou então tomam uma atitude drástica, como aconteceu
no México essa semana, quando uma menina esfaqueou 65 vezes uma outra garota
que postou uma foto dela sem roupas. Isso aconteceu no México, mas poderia ter
acontecido aqui.
A ideia de mulher objeto também é visível na divisão
entre mulheres “de bem” e as que são “só para o prazer”. É uma conseqüência dessa
determinação. As pessoas supõem que algumas mulheres, entre elas suas mães e
irmãs, são mulheres corretas que não fariam esse tipo de coisa. Inclusive por
isso existe uma diferença tão grande na forma de abordar o tema com filhos de
diferentes sexos. Os meninos são praticamente motivados a conseguir muitas conquistas
sexuais, enquanto as meninas têm que “se agüentar” até encontrar a pessoa certa
(às vezes nem encontrando a pessoa certa a família entende que ela tem o
direito de desfrutar de sua vida sexual). Não querem que suas parentes virem
mulheres “só para o prazer”, por isso existe tanta precaução com elas. Muitas vezes as famílias se importam mais com a reputação da família que com a vida da própria filha.
Mas, enfim, essas ideias não passam de crenças
que podem ser mudadas com raciocínio lógico e um pouco de boa vontade. Se
começamos a ver as mulheres como seres humanos, com seus defeitos e virtudes, veremos
a realidade como ela é e conseguiremos fugir de padrões limitados que machucam certas pessoas. Basta abrir a cabeça e nos colocar na posição delas. Não
é tão difícil. Ver qualquer mulher como objeto ou determinar quais são “de bem”
ou quais são “só para o prazer” é uma visão muito machista que demonstra inversão de valores. É hora de perceber nossa participação na formação desses
conceitos. Só depois desse reconhecimento conseguiremos mudar. As mulheres
agradecem.
O próximo post é sobre os encoxadores dos
transportes públicos, outro tema sério que vem gerando polêmica atualmente. Quanto às vítimas de pornô-vingança, uma última reflexão: se sua filha ou irmã aparecesse no vídeo publicado, o que você sentiria? E o que ela sentiria? Então pense duas vezes antes de publicar qualquer vídeo desses. As consequencias dessa exposição são sempre cruéis com as mulheres.
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